Eduarda Calazans e Daniely de Almeida saíram de casa debaixo de chuva para tentar matrícula para a adolescente nesta terça-feira. Foto: Gabriel Ronan/Jornal Norte Livre.
Eduarda Calazans e Daniely de Almeida saíram de casa debaixo de chuva para tentar matrícula para a adolescente nesta terça-feira. Foto: Gabriel Ronan/Jornal Norte Livre.
Publicidade

O ano letivo começou da maneira mais caótica possível em Minas Gerais: greve dos professores que lutam por valorização junto ao estado e dificuldades para pais e responsáveis para matricular estudantes na rede pública de educação.

Em Venda Nova, na Escola Estadual Ari da Franca, no Bairro Santa Mônica, pais fizeram fila para tentar inscrever seus filhos na segunda (10), primeiro dia de aulas. Nesta terça-feira (11), alguns ainda procuravam a unidade em busca de respostas, caso de Daniely de Almeida, de 35 anos, e da filha dela, Eduarda Almeida Calazans, de 14.

“A gente mora no Bairro Piratininga e ela foi encaminhada para o JK (E.E. Juscelino Kubitschek de Oliveira), no Bairro Maria Helena. Fica completamente desproporcional em relação à nossa casa. A gente estava olhando questão de transporte, mas fica difícil”, reclama a mãe.

CONTINUA APÓS ESTA PUBLICIDADE

A menina estudava na Escola Municipal Padre Marzano Matias, no Bairro Rio Branco, vizinho ao Piratininga. Contudo, como o Ensino Médio público é exclusivo da rede estadual, Eduarda Almeida Calazans precisou se matricular em outra unidade escolar.



Porém, segundo a mãe, a adolescente só encontrou vaga na Escola Estadual Ari da Franca, que é a mais próxima de casa, no período da noite. Contudo, a mulher se preocupa com a segurança da filha.

“Eu vim no dia 10 e disseram que tinha uma lista de espera. Só que, pelo fato de não ter vaga à tarde, eu fui obrigada a matricular uma menina que tem 14 anos ainda no turno da noite. Estou extremamente preocupada”, lamenta.

Ao lado da mãe, a adolescente acompanhava o diálogo da responsável com a direção da escola. Quando perguntada sobre como se sentia com o imbróglio, a menina lamentou as dificuldades para conseguir se matricular.

“A gente se sente meio deslocada. Você vê seus sonhos de estudar indo por água abaixo. A gente veio fazer matrícula ontem e viu um cara de 21 anos fazendo matrícula para estudar à noite. Eu não me imagino estudando com pessoa mais velha assim. Gera até um pouco de medo, porque o mundo de hoje está complicado”, afirma a garota.

Outro pai presente ao Ari da Franca na tarde desta terça-feira reclamava de outra questão: a falta de salas para o filho. Segundo ele, o garoto tem 17 anos e cursa o 2º Ano do Ensino Médio.

Apesar de a matrícula já ter sido feito, o problema acontece justamente na hora de encontrar uma turma para o estudante. De acordo com o pai, que não quis se identificar, a Secretaria de Estado de Educação não incluiu o adolescente no sistema, o que dificulta o trabalho da escola.

O processo de inscrição de alunos aconteceu, pela primeira vez, pela internet. No sistema, os pais e responsáveis deveriam escolher três opções para os filhos, mas muitas vezes a terceira alternativa foi escolhida, que, geralmente, não atende à realidade geográfica dos estudantes.

Há casos, inclusive, de alunos que foram enviados para escolas fora das três opções assinaladas.

Greve

Os problemas de Minas Gerais para administrar a educação pública também se estendem aos professores. A categoria entrou em greve nesta terça-feira e cobra valorização salarial do governo do estado, que enviou à Assembleia Legislativa um projeto de lei assinado por Romeu Zema (Novo) que autorizaria o reajuste de 37% para a segurança pública.

“Nós não somos contra o reajuste dos trabalhadores da segurança pública. Nós somos contra a política que o governo está estabelecendo. Nós queremos o mesmo tratamento. O governador não pode pedir pra população escolher o que é mais importante: se é o salário do policial militar ou se é o salário da professora”, explica a coordenadora-geral do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sind-UTE/MG), Denise Romano.



De acordo com Denise, o projeto enviado por Zema já passou na Comissão Constituição e Justiça (CCJ) e agora segue para a Comissão de Fiscalização Financeira e Orçamentária. Nesta última, o texto deve ser votado ainda nesta terça-feira.

Ainda segundo a coordenadora-geral do Sind-UTE/MG, o governo de Minas não apresentou proposta alguma à categoria, o que dificulta qualquer negociação. “O governo passou um ano reunido conosco e nunca apresentou nenhuma proposta. Nem uma proposta ruim para ser rejeitada para a categoria. Logo em seguida, eles vão apresentar o regime de recuperação fiscal que vai congelar o nosso salário”, ressalta Denise Romano.

Em Venda Nova, fontes ligadas a E.E. Ari da Franca disseram ao Jornal Norte Livre que a adesão à greve é parcial nos turnos da manhã e da noite e integral à tarde. Contudo, o expediente deve se normalizar, tendo proposta do governo ou não, na próxima segunda-feira (17) na unidade.

Outro lado

Em nota, a Secretaria de Estado de Educação informou que inaugura neste ano “o processo informatizado de matrícula escolar”, que é usado “na maioria dos estados brasileiros”.

A pasta também esclareceu que “327 mil estudantes que fizeram a pré-matrícula na rede estadual de ensino, dos quais 97% foram alocados em uma das três primeiras unidades de ensino de sua escolha que apontaram no ato da inscrição, e deste total, 70% conseguiram a vaga na primeira opção”.

O governo do estado também ressaltou que “as dúvidas das famílias estão sendo esclarecidas, caso a caso, por meio do canal de atendimento “fale conosco” disponível no site da secretaria”.

Quanto ao caso da estudante Eduarda Almeida Calazans, 14, a Secretaria de Educação informou que ela foi encaminhada à Escola Estadual Juscelino Kubitschek de Oliveira, que era sua terceira opção no ato de inscrição.

Conforme dito pela mãe da aluna ao Norte Livre, a pasta também esclareceu que “a família da estudante optou por buscar vagas remanescentes na E.E. Ari da Franca, que somente possuía a disponibilidade de atendimento no turno noturno”

Quanto ao caso do estudante matriculado e ainda sem turma, a Educação estadual afirmou que “não é possível verificar o caso específico sem o nome do aluno”. Vale lembrar que o pai do próprio aluno pediu sigilo à reportagem.

Ainda assim, a pasta esclareceu que “os alunos que desejavam permanecer na mesma escola precisavam renovar a matrícula para 2020 presencialmente na unidade, entre 19 de novembro e 20 de dezembro. Os estudantes que não renovaram a matrícula devem buscar, agora, uma escola com vaga remanescente que melhor possa atendê-lo”.

Já quanto à reclamação de fontes ligadas à escola de atendimento educacional especializado acima do permitido, a Educação informou que a direção da E.E. Ari da Franca disse que a situação não acontece na escola.

Sobre a greve dos servidores da educação, a secretaria destacou que “respeita o direito constitucional de greve” e que “tem mantido um diálogo franco e aberto com representantes sindicais”.

Publicidade

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui