Em ''Fugio'', a rapper tenta definir sua identidade musical e se consolidar na cena cultural de Belo Horizonte. Foto: reprodução/Facebook.
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Por Gabriel Ronan

Aos 27 anos, a rapper Tamara Franklin usa seu talento e a tradição familiar para sobreviver em cenário artístico composto por obstáculos. Mulher, negra, vinculada a um gênero musical rodeado de preconceitos e longe dos investimentos que cerca a Região Centro-Sul de BH, ela concedeu entrevista exclusiva ao Norte Livre e contou sobre seu novo trabalho – o álbum Fugio. 

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Apoiada pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura, Tamara vai receber R$ 70 mil via edital, por meio do Fundo Municipal, para produzir o CD e promover o show de lançamento.

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Confira a entrevista abaixo:

Norte Livre: como nasceu sua relação com a música?

Tamara Franklin: “Eu tenho relação com a música desde a infância. Meu pai sempre gostou muito de samba, por mais que a gente não tivesse nem rádio em casa. Eu ouvia muito ele cantando as músicas desse gênero e as da Bahia. Além disso, frequentei a Igreja Evangélica, que me ajudou neste sentido. Foram essas duas vias sem dúvidas”.

Norte Livre: e o rap? Veio de onde?

Tamara Franklin: “Quando fiz nove anos, tive meu primeiro contato com o rap. Meus vizinhos ouviam e eu acabava ouvindo de tabela. Eu fui me interessando pela cena. Nessa época, já tinha rádio em casa e fui atrás das rádios comunitárias para conhecer mais sobre o gênero”.

Em seu primeiro álbum, a rapper trouxe o talento de músicos africanos para complementar o trabalhos. Foto: reprodução/Facebook.
Em seu primeiro álbum, a rapper trouxe o talento de músicos africanos para complementar o trabalhos. Foto: reprodução/Facebook.

Norte Livre: no seu primeiro álbum, Anônima (2015), você optou por um trabalho que trazia as raízes da mulher negra e o feminismo. O Fugio vai tratar dessas questões também?

Tamara Franklin: “Eu acho que não tem como fugir, porque o Anônima nem foi de propósito. Esse álbum teve acolhimento muito forte desse público, mas não foi intencional. Talvez seja porque a arte trata do que a gente vive. Como meu lugar de sala é da mulher preta, se torna inevitável não tocar nesse tema. O Fugio traz essas mesmas temáticas por causa das perspectivas”.

Norte Livre: neste novo trabalho também haverá participação de artistas africanos?

Reprodução/Facebook

Tamara Franklin: “O Fugio não. O Anônima veio de uma mistura do new rap com ritmos brasileiros. O novo álbum é uma proposta de ponte entre as culturas, principalmente do congado e do reinado, o povo afro-mineiro. Neste sentido, envolve toda a questão religiosa, a sincretização musical e religiosa do congado”.

Norte Livre: qual a grande novidade trazida em Fugio?

Tamara Franklin: “O primeiro álbum era uma formação de identidade, enquanto o Fugio é como se fosse uma continuidade de um processo de localização identitária, do mim encontrar”.

Norte Livre: por que o nome ”Fugio”?

Tamara Franklin: “O nome vem de um livro que eu estava lendo. Nele, tinha anúncios de escravos. É um português mais arcaico, mas se trata do nosso fugio contemporâneo. Em uma conversa com meu pai, a gente discutiu como a fuga era um ato de resistência no período escravocrata. O nome vem desde a estética do álbum, que foge do habitual, e também da fuga atual dos negros no Brasil”.

Norte Livre: quais são as dificuldades para se fazer cultura em Venda Nova e Ribeirão das Neves?

Tamara Franklin: “Começando pela minha cidade, nós temos artistas maravilhosos, em todos os seguimentos. Minhas referências do rap moram na rua da minha casa. Mas, infelizmente, não temos políticas que deem o mínimo suporte para esses artistas conseguirem viver na cidade. Quanto à cena de Venda Nova e do Norte da BH, eu sou muito grata de conviver com esses artistas. Eles têm um sentimento de pertencimento”

Norte Livre: e como resolver a falta de apoio?

Tamara Franklin: “Pessoas que representam o poder público continuam a segregar os artistas longe dos grandes centros. Então, por mais que a gente tente, acabamos dependendo de BH para sobreviver. A saída é apostar nessas micropolíticas e articulações para trazer a arte que produzimos para perto da gente que nós convivemos. Foi o caso do festival de rimas, que englobou artistas de Venda Nova”.


 

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