Marcus em apresentação realizada no ano passado. Artista convive com o racismo e as heranças da escravidão no Brasil. Foto: Fernanda Abdo.

Belo Horizonte ficou marcada, recentemente, por dois casos tipificados como injúria racial. No Mineirão, um segurança foi xingado pelo torcedor Adrierre Siqueira da Silva, de 37 anos. “Olha a sua cor”, disse o homem. Em um restaurante da Savassi, uma moradora de Venda Nova também sofreu com o preconceito racial. Thiago Dayrell, porta-voz do Movimento Brasil Livre (MBL), dirigiu as seguintes palavras à cozinheira: “tira a mão de mim, sua crioula”. 

Num cenário no qual o negro ainda luta por igualdade e as feridas da escravidão permanecem abertas, o Jornal Norte Livre entrevista o ator, músico e agente cultural Marcus Vinícius de Carvalho, de 39 anos, que comanda, em Venda Nova, a companhia de teatro Negro e Atitude. Morador do Bairro Serra Verde desde que nasceu, ele está no projeto desde 2000 e se formou como ativista da causa negra a partir dos aprendizados adquiridos no coletivo. 

Norte Livre: qual tipo de trabalho você desenvolve na companhia de teatro?

R: é um grupo que pesquisa cultura afro-brasileira, especialmente as culturas populares de matriz africanas, com três recortes: a capoeira, o congado e o candomblé. A gente pesquisa como podemos utilizar da corporeidade, da musicalidade e da pessoalidade dos cantos e histórias dessas três manifestações. 

Norte Livre: como você analisa o teatro brasileiro? 

R: o que queremos é descolonizar o teatro daqui. A gente percebe que ainda temos uma produção muito europeia. Então, queremos usar as manifestações culturais de matriz africana para desconstruir isso. 

Norte Livre: qual as dificuldades de fazer arte negra em BH?

R: há uma tendência das pessoas de nos colocar em locais que pautam somente a cultura negra. Isso é muito legal, desde que não seja uma obrigatoriedade. Em novembro, vamos nos apresentar no Festival de Arte Negra (FAN), o que é muito legal e importante. Mas,  também queremos estar no Festival Internacional de Teatro (FIT) e na Virada Cultural, porque, senão, a gente fica com um calendário muito menor.

Norte Livre: você já sofreu discriminação racial?

R: com certeza. Acho que ser jovem negro e periférico, em BH, já é certo que você vai sofrer algum tipo de discriminação. Quem diz o contrário, talvez não tenha percebido. Desde a infância, ganhei apelidos pejorativos. Sou de uma época em que a palavra bullying nem existia. Essa palavra só aparece quando a vítima é branca. Na adolescência, andava a pé para estudar teatro e tomava muita batida policial. Hoje em dia, o que mais sofro está ligado à questão econômica. Talvez, hoje, as pessoas me veem como ativista político, então elas pensam duas vezes em falarem (coisas racistas) comigo. 



Norte Livre: por que você acha que as pessoas não são tão preconceituosas com você atualmente? Tem a ver com o medo de sofrer sanções e pelo debate em torno do racismo?

R: exatamente. Elas olham pra mim hoje e reconhecem uma figura que sabe se defender. Portanto, vão medir mais suas palavras. As atitudes mudam, porque as ferramentas estão aí.

Norte Livre: e essas “ferramentas” são suficientes?

R: a grande verdade no Brasil é que ninguém se encontra preso no país por racismo ou injúria racial. Injúria racial já é uma forma de diminuir o racismo. Quando você chega na polícia, o delegado diminui sua versão e coloca que foi um crime de injúria racial, que é crime menor, cabe fiança e responde em liberdade. 

Norte Livre: mas, você reconhece que boa parte da população negra não tem acesso ao conhecimento que você tem. A dificuldade não é maior para ela?

R: a própria entrada no teatro Negro e Atitude quando era jovem me deu um monte de acesso. Eu nunca uso a palavra privilégio quando o assunto é negro, porque o negro nunca tem privilégios. Nem terá. Às vezes, estou numa palestra e, ao final, as pessoas vêm fazer algum elogio. Mas, sinto que a pessoa está, na verdade, surpresa. Ela não esperava que eu abrigasse tanta informação. 

Norte Livre: o Brasil atual representa retrocessos para o movimento negro?

R: eu já passei por alguns governos nesse Brasil e a minha avaliação é que nunca passei por algo tão ruim. Por outro lado, existe uma coisa que a gente precisa ter um pouquinho de fé. Há uma quantidade de negros e negras que já se especializaram e estão provocando discussões na sociedade. Há retrocessos, mas a gente não pode considerar que será uma vitória do discurso de ódio. A impressão que eu tenho é que eu me assustei muito menos que a maioria, talvez porque minha vida nunca foi fácil. Nem nos governos bons. 

Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre.

Norte Livre: como você avalia a relação entre a segurança pública e o negro? 

R: minha vida sempre correu risco. Estatisticamente falando, tem apenas 10 anos que eu saí da linha na qual eu tinha quase 30% de chances de ser assassinado andando na rua. O negro é a mão de obra barata do tráfico de drogas. Os grandes traficantes do país são homens brancos e ricos. O Brasil combate esse problema de maneira errada. A PM prefere pegar menino que carrega “buchinha” que o comando do tráfico. É impossível acabar com o problema pela folha. Tem que ser pela raiz.

Norte Livre: como a arte pode contribuir para um país menos racista?

R: o teatro Negro e Atitude criou um espetáculo interessante em 2013. Tratava do genocídio de jovens negros na periferia. O grupo conversava sobre mortes recentes de parentes por tráfico de drogas. Geralmente, no que a polícia chama de confronto, mas que é muito estranho porque mata o moleque de 14 anos. O que a gente tem feito é manter nosso teatro como um teatro de denúncia, que sirva como referência para o jovem.

Norte Livre: onde Venda Nova entra nisso?

R: A gente tem muita a preocupação de ir em todos os eventos que a gente puder. De ir para fora do estado. Mas também de voltar e apresentar aqui na nossa comunidade, a Região de Venda Nova. Esse movimento de vai e vem é nossa pequena contribuição contra o racismo dentro do campo da arte. 




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