Cine Teatro São Pedro e Companhia Teatral Leopoldo Fróes - Acervo da família do senhor Waldemar Teles
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Sr. José Bonifácio Costa, ou “Coronel Facinho” – como muitos o chamavam -, foi um dos moradores que ajudaram a impulsionar Venda Nova à mesma época em que Dona Lúcia César Santos. Ele é citado no livro “O Distrito de Venda Nova e um pouco da sua história”, de Geraldo Lisboa, como o primeiro a trazer a ideia de cinema para a região por volta do fim da década de 1920.

O “Coronel Facinho”, junto do seu irmão Sr. Joanico, exibia aos vizinhos filmes do cinema mudo em seu quintal. Apesar do título no apelido, o sr. José Bonifácio Costa era um comerciante e vendia panos em uma loja própria, que era situada na Rua Padre Pedro Pinto, 751, ao lado de onde existe, hoje, uma franquia das Lojas Rede.



Ex-agente dos Correios Brasileiros, o “Coronel Facinho” foi um dos fundadores e o primeiro presidente do Venda Nova Futebol Clube, entremeio a década de 1930, de acordo com Hugo Fróes, ex-tabelião do cartório de Venda Nova citado na obra de Lisboa.

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Segundo o autor Geraldo Lisboa, em trecho do livro, “o sr. José Bonifácio Costa e amigos fundaram o ‘Clube Melhoramentos de Venda Nova’ que não era um clube político, visava trazer palestras de Belo Horizonte para falar ao povo de Venda Nova e incentivar a melhoria social e cultural da região”.

Ainda, conforme o ex-tabelião, poucas pessoas tinham rádio na região, pois os aparelhos precisavam de luz elétrica. Portanto, para terem opções de lazer, foi criado, em 1932, um teatro no antigo Casarão de Venda Nova, situado na esquina da Rua Boa Vista com a Rua Padre Pedro Pinto – chamada de Rua Direita à época.

Em seguida, em data não estipulada, segundo o livro “Lembranças de Veda Nova”, de Ana Maria da Silva, o “Coronel Facinho” levou o cinema para perto da atual Praça Amintas de Barros, na esquina da Rua Santa Cruz com Rua Padre Pedro Pinto. Ali, mais tarde, conforme o autor Geraldo Lisboa, começou a funcionar, realmente, o primeiro cinema de Venda Nova, administrado por um proprietário alemão, que era técnico na Rádio Inconfidência.

Os filmes mudos eram exibidos com acompanhamento de alguns músicos, possivelmente da “Corporação Musical Santo Antônio de Venda Nova”, fundada em 1925.

“Nós não tínhamos cinema, então o Facinho pôs uma casa, mais ou menos perto da Capelinha, perto da Rua Santa Cruz ali na esquina… Eu era mocinha. Ele fez uma fita, não sei o que, mas era mudo. A gente só via as pessoas mexendo a boca, achava tão bonito! Quando o Miro tomou conta e teve o cinema para a gente, era lá embaixo perto da igreja Santo Antônio.” Relato de Dona Prosperina retirado do livro “Lembranças de Venda Nova”.

Conforme o livro de Ana Maria da Silva, décadas mais tarde, um empresário local chamado Argemiro Torres – o “Miro” citado por Dona Prosperina – uniu as duas linhas de lazer de Venda Nova e fundou o “Cine Teatro São Pedro e a Companhia Teatral Leopoldo Fróes”.

A nova casa de filmes e peças teatrais data da década de 1940, de acordo com Dona Maria Nilza Pinto, ex-funcionária da Prefeitura de Belo Horizonte na Regional Venda Nova, e o autor Geraldo Lisboa. Ela conta sobre as sessões no Cine Teatro São Pedro no livro “História de Venda Nova em contos e causos narrados para crianças e jovens”, produzido pela antiga Secretaria Municipal de Coordenação de Gestão da Regional Venda Nova (SCOMGER-VN).

De acordo com a ex-funcionária pública, o Cine Teatro São Pedro era a sensação de Venda Nova em 1958. O prédio era antigo, pequeno, tinha goteiras e não existe mais. Ele ficava situado na esquina da Rua Santo Antônio com a Rua Padre Pedro Pinto, onde existe, atualmente, o restante da Praça Matriz de Santo Antônio, em frente à igreja da Paróquia Santo Antônio de Venda Nova.

Vista aérea de Venda Nova - Cine Teatro São Pedro marcado em vermelho - década de 1940 - Fonte - Acervo pessoal de Nilza de Oliveira Miranda
Vista aérea de Venda Nova – Cine Teatro São Pedro marcado em vermelho – década de 1940 – Fonte – Acervo pessoal de Nilza de Oliveira Miranda

Nesta esquina, na mesma porção de terra entre as ruas mencionadas acima, está o início de um movimentado ponto de transporte coletivo, em frente ao Centro Universitário Estácio de Sá.

“Ah! que saudade daquelas peças emocionantes! O Cine São Pedro exibia filmes todas as noites. Aos domingos, havia matinê, à tarde, e duas sessões à noite. Os cartazes pendurados nas paredes do prédio, do lado de dentro e do lado de fora, anunciavam os filmes em exibição durante a semana. Todas as segundas-feiras acontecia a sessão das moças. Mulheres não pagavam ingresso. Neste dia, os homens não gostavam de ir ao cinema.” Relata Dona Maria Nilza Pinto no livro “História de Venda Nova em contos e causos narrados para crianças e jovens”.

O Cine Teatro São Pedro foi o primeiro cinema falado do distrito. O proprietário, o Sr. Miro, também foi o primeiro proprietário da linha de ônibus de Venda Nova. Segundo Lisboa, ele não aumentava o preço das passagens quando a prefeitura autorizava e, além disso, cobrava meia tarifa de estudantes.

O cinema tinha apenas um projetor cinematográfico e precisava de intervalos durante a exibição para trocar o rolo de fita na cabine. Segundo Dona Maria Nilza Pinto, muitos saíam à rua nas pausas. A maioria homens, fumantes, para tragarem seus cigarros. “Os apaixonados voltavam trazendo pipoca”. 

Lisboa menciona que baleiros invadiam os corredores nesses hiatos. Outra característica comum à época era a existência de duas classes separadas por uma grade dentro do cinema. “Na primeira, havia cadeiras comuns de sala de visitas, sem braços ou fixação no chão, e o ingresso era mais caro, assentava-se na segunda em bancos sem encostos, e é claro, o ingresso era mais barato”, descreve o autor.

Ainda em 1950, o Cine Teatro São Pedro foi arrendado pelo jovem entusiasta Afonso Magno Moreira, o qual trouxe para Venda Nova o Cinemascope – uma tecnologia capaz de exibir filmes no formato widescreen.

Ilustração: Cléria Maria das Graças e Carlos José dos Santos - Livro HIstória de Venda Nova em contos e causos narrados para crianças e jovens - PBH
Ilustração: Cléria Maria das Graças e Carlos José dos Santos – Livro HIstória de Venda Nova em contos e causos narrados para crianças e jovens – PBH

Mais tarde, segundo Lisboa, novos empresários, Afonso Lara e João Enoch Caixeta, construíram na Rua Padre Pedro Pinto, 1.002, um novo cinema grande e moderno. “Era o Cine Belene, nome formado com parte dos nomes das esposas dos proprietários”, relata o autor.

O Cine Belene funcionou até meados de 1973, quando começou a perder público para os sistemas televisivos de todo país. O prédio do Cine Teatro São Pedro foi destruído e restaram apenas lembranças da época de ouro do cinema em Venda Nova.

“Quando chovia era um problema. Não fora do cinema, mas dentro dele. Era goteira para tudo que era lado. Para quem se assentasse na última fila ou assistia ao filme em pé, tinha o privilégio de abrir o guarda-chuva. Mas tudo isso era bom. Era muito bom … E lá estávamos nós, assistíamos uma, duas, três vezes ao mesmo filme. E cada vez era uma emoção diferente. Como era bom ver aquelas cenas de amor (nada de cenas eróticas), que nos faziam sonhar de olhos abertos: cenas que ainda hoje devem bailar na memória das senhoras, mocinhas daquela época.” Relato de Dona Maria Nilza Pinto sobre o Cine Teatro São Pedro em 1958.



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Jornalista graduado pelo Centro Universitário de Belo Horizonte — UniBH (2017), jornalista editor no Jornal Norte Livre com passagem pelo Jornal Daqui BH, ambos parceiros hiperlocais do Portal Uai/Diários Associados. Professor e sócio na empresa "Quando - Fábrica de narrativas", conteudista, SEO (Search Engine Optimization), videomaker, fotógrafo e entusiasta como ilustrador, desenvolvedor web e animador 2D."Os livros são o templo do jornalista, mas é nas ruas que ele congrega". Will Araújo

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