Foto: acervo pessoal de Sheila
Foto: acervo pessoal de Sheila
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Em um Território de Gestão Compartilhada (TGC) de Venda Nova que, segundo a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), apresenta números sociodemográficos de vulnerabilidade juvenil acima do restante da capital, com maior quantidade de habitantes na região e taxa de abandono escolar de 13%, as iniciativas vindas de professores(as) amenizam o cotidiano dos(as) alunos(as). Nesse agrupamento por semelhanças, estão as vilas do Piratininga, do Santa Mônica (1ª e 2ª seção), Jardim Leblon, do Índio, Copacabana e Apolônia. E, entre elas, estão as escolas estaduais Afrânio de Melo Franco e Síria Marques da Silva.

As professoras e os professores do local estão habituados a superar algumas dificuldades da região. Entretanto, recentemente, uma docente da E. E. Síria Marques da Silva, Sheila P. R. da Silva, em busca de atender aos anseios de seus 18 alunos(as) para o Dia das Crianças, foi surpreendida pela repercussão da ação.


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Sheila é unidocente, ou seja, uma professora por turma que leciona todas disciplinas — menos a de educação física. Ela dá aulas a alunos(as) do quinto ano do Ensino Fundamental, que possuem, em média, entre 10 e 11 anos de idade.

Como prática em sala, Sheila costuma trazer assuntos publicados pelo portal de notícias “Razões para Acreditar”, o qual aborda temas de comunidades, sobre altruísmo, e que sempre terminam com finais felizes. “Esses exemplos levam os alunos a terem esperança onde moram”, diz a professora.

Em uma dessas aulas, que também amadurecem a ética dos discentes, Sheila percebeu que os alunos conversavam acaloradamente sobre um objeto comum, mas que parecia economicamente distante a eles. “Não recordo muito bem qual era o objeto. Era algo simples, como um chinelo Havaianas, mas eles debatiam sobre quanto custava: R$10, R$20, R$40. Quando uma criança disse que era muito caro e que não poderia comprar e outra falou que compraria quando estivesse trabalhando, me distanciei um pouco e comecei a ser apenas espectadora”, diz a docente.

Ela percebeu que a expectativa daqueles alunos(as) era muito diferente de outros(as). Que a frustração para eles era mais profunda do que para discentes com melhores capacidades financeiras. Por isso, buscou uma forma de “crowdfunding” (vaquinha online) para presenteá-los no último Dia das Crianças.

Os alunos queriam ganhar presentes simples, como tênis, mochilas com materiais escolares, ir ao cinema ou clube com familiares e, até mesmo, uma blusa de frio com capuz.

Os pedidos sensibilizaram a plataforma “Razões para Acreditar” e pessoas de todas regiões se mobilizaram para dar os presentes aos(às) 18 alunos(as) de Sheila. A repercussão foi tão grande que a professora arrecadou, a mais, 118 mimos e os distribuiu para os demais alunos da escola. Até uma voluntária pediu permissão para organizar uma festa para entrega dos donativos.

Alguns estudantes de psicologia propuseram à escola acompanhamento gratuito dos(as) alunos(as) e barbeiros da região ofereceram cortes gratuitos aos discentes.

Sheila conta que os professores e os demais funcionários da escola participaram e agregaram ainda mais a iniciativa. Porém, sente-se incomodada de a ação ser vista, ainda, como algo atípico enquanto deveria ser uma apropriação cotidiana da comunidade. “A escola é uma espaço público da comunidade”, diz a professora.

Ela percebe que as carências dos alunos não se limitam a apenas presentes, mas, também, a itens de necessidade imediata, como alimentação. “Nós, professoras e professores, percebemos quando um aluno está menos ativo em sala… quando está mais sonolento. Eu pergunto se está tudo bem, questiono se já se alimentaram e, às vezes, alguns falam que não, mas outros, por sentirem vergonha, preferem não dizer. Por isso, os levo até a cantina e ofereço a merenda, que muitas vezes será a refeição do almoço e da tarde deles”, diz a Sheila.

Recentemente, o veículo de notícias online BHZ procurou a professora e também ofereceu ajuda, expondo contatos para a arrecadação de cestas básicas. Com a campanha, Sheila também conseguiu duas cestas e duas caixas de leite.

Foto: acervo pessoal de Sheila
Foto: acervo pessoal de Sheila

Professores(as) nascem professores(as)

Sheila é natural de Campo Formoso, uma cidade no interior da Bahia. Sua caminhada na educação é herança de família, com mãe diretora e tias e tios docentes. À época dos estudos, ela optou pelo magistério e, aos 14 anos, começou a trabalhar como auxiliar de professora em uma escola.

Quando a professora regente precisou migrar da cidade, os pais dos(as) alunos(as) pediram que a adolescente continuasse com seus filhos(as), o que levou Sheila a ocupar, bem cedo, o cargo de docente. Ela ficou mais dois anos trabalhando na escola.

Contudo, por causa de complicações de saúde, necessitou fazer uma cirurgia em Salvador. Ela não pôde voltar, pois em Campo Formoso havia uma fábrica de cimento, o que poluía bastante o ar da cidade e criaria problemas no pós-operatório.

Ela decidiu ficar na capital da Bahia e lá começou a ensinar informática para pessoas da terceira idade. Enquanto isso, foi aprovada no vestibular para pedagogia e começou, de fato, na carreira acadêmica.

Naquela época, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, o Brasil absorveu um projeto educacional criado na Colômbia, que consistia em unir alunos de diversas idades para constituir turmas em locais que não conseguiam completar salas separadas por séries.

Eram salas multisseriadas com alunos entre sete e 10 anos. Sheila então decidiu voltar para cidade natal e lá ingressou no programa de capacitação de professores para essas turmas com várias séries.

Após alguns anos, ela evoluiu de coordenadora do projeto em Campo Formoso para secretária de educação do município, onde triplicou o tamanho da atividade. Meses depois, voltou para as salas de aula.

Neste tempo, Sheila namorou o atual esposo, que morava no Rio Grande do Sul e trabalhava em São Paulo. Eles decidiram se casar e, para que as famílias não ficassem distantes, se mudaram para Belo Horizonte, cidade intermediária entre os estados. Eles estão há dez anos em Venda Nova.

Sheila passou no concurso municipal e dá aulas, desde 2011, na Escola Municipal Professor Amilcar Martins, no Bairro Santa Amélia. Em 2014, se candidatou novamente, porém, para rede estadual de ensino, na qual foi aprovada e leciona, também, desde 2016, na Escola Estadual Síria Marques da Silva, no Bairro Jardim Leblon.

Ela, como várias professoras e vários professores, acorda às 6h, entra nas salas de aulas estaduais às 7h, sai às 11h30, faz o que pode até 12h45, começa a lecionar na rede municipal às 13h, sai às 17h30, chega em casa entre 17h45 e 18h30, e só para de pensar em educação às 19h. Apesar da rotina, Sheila, como a maioria dos(as) docentes, ama o que faz.

“Penso que as pessoas deveriam abraçar a escola como um todo. Pois muitas vezes é o único espaço público daquele povoado ou bairro. Visite a escola do seu bairro, seja um amigo da escola. Com isso todos ganham”, diz a professora.


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Jornalista graduado pelo Centro Universitário de Belo Horizonte — UniBH (2017), jornalista editor no Jornal Norte Livre com passagem pelo Jornal Daqui BH, ambos parceiros hiperlocais do Portal Uai/Diários Associados. Professor e sócio na empresa "Quando - Fábrica de narrativas", conteudista, SEO (Search Engine Optimization), videomaker, fotógrafo e entusiasta como ilustrador, desenvolvedor web e animador 2D. "Os livros são o templo do jornalista, mas é nas ruas que ele congrega". Will Araújo