Jovens de Venda Nova campeões de Jiu-Jitsu - Fotos: Will Araújo/Jornal Norte Livre
Jovens de Venda Nova campeões de Jiu-Jitsu - Fotos: Will Araújo/Jornal Norte Livre
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Pelo viés da saúde física e mental; pelo viés da disciplina ou pelo viés da socialização, o esporte está nas escolas como aliado à vida acadêmica. Essa foi a perspectiva apresentada por Esther Ariadne de Souza,  moradora de Venda Nova e Vespasiano e uma das campeãs do Panamericano Interclubes de Jiu-Jitsu 2019, ocorrido em Betim, em nove de novembro.

Esther tem 11 anos, disputa torneios pela categoria infantil, porém, no pesadíssimo, e começou a praticar Jiu-Jitsu em fevereiro do ano passado. Entrou no esporte movida pelo altruísmo da avó Elcione, que cedeu a garagem para os professores (mestres) da região de Vespasiano ministrarem aulas.

Esther Ariadne de Souza - Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre
Esther Ariadne de Souza – Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre

No início, os aprendizes usavam tapetes e lonas para praticar, mas, com o tempo, o professor Valdeci (mais conhecido pela alcunha Israel) conseguiu o tatame adequado e a escola improvisada de Jiu-Jitsu evoluiu. Hoje, estão em uma academia dedicada ao esporte. O projeto encabeçado por Israel se chama “Guerreiros da Luz”.

Na garagem, Esther era acompanhada pelos tios, amigos e padrasto. A tia Jordânia era a lutadora mais próxima da garota, mas parou na faixa azul quando a escola foi para uma academia.

Segundo André, o pai da garota, na academia ela fez mais amigos e a disciplina repercutiu na escola. Conforme ele, o investimento na filha acontece pela consciência dos obstáculos que o gênero feminino enfrenta em qualquer desporto. Por isso, “acreditar e incentivar a Esther é uma contribuição para a luta das mulheres”, afirma.

Familiares de Esther (André de Souza e amiga) - Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre
Familiares de Esther (André de Souza e amiga) – Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre

Esther treinou bastante, graduou para a faixa amarela (quarto grau) e ingressou na equipe “Força e potência”, do projeto do professor Israel.

Daí em diante passou a disputar torneios da Liga Brasileira de Jiu-Jitsu (LBJ-J), nos quais foi ouro como atleta da categoria infantil pesadíssima na 30ª Edição do Campeonato Brasileiro Interclubes da Liga de Jiu-Jitsu, ocorrido no ginásio poliesportivo de Betim, em 22 de setembro; e ouro na Copa Brasil Interclubes de Jiu-Jitsu, ocorrida em Uberlândia, em 27 de outubro.

Esther não disputou na chave profissional absoluto, por isso não concorreu a prêmios em dinheiro. Recebeu como recompensa, medalhas temáticas nas cores da colocação que ocupou.

Mesmo assim, a garota e os familiares seguem uma dura rotina de enfrentamento às dificuldades de ser atleta no Brasil. O pai conta que para irem a Uberlândia participarem do torneio, fizeram vaquinhas com amigos, arranjaram um carro emprestado e chegaram no mesmo dia em que a Copa ocorreria. Mal dormiram, Esther lutou, venceu, e vieram embora.

Para equilibrar as contas, os familiares tentam vender camisas da equipe que Esther participa, mas o resultado é sempre muito instável. Todavia, eles estão focados nos campeonatos que virão em fevereiro de 2020 e contam com o altruísmo das pessoas.

O kimono usado por Esther também é doado por amigos e, apesar de levar a marca nos ombros, ainda não teve nenhum retorno da empresa sobre patrocínio. A garota divide o tempo entre as duas casas (por causa dos pais divorciados), a escola e a academia. Enquanto isso, acumula medalhas na categoria infantil pesadíssimo em torneios nacionais, como os que ocorreram neste ano.

“O jiu-jitsu é uma arte suave, em que existe o contato e a disciplina. Você usa a força do seu oponente contra ele mesmo”, diz Ether.

Mais medalhista na casa

Ainda em Venda Nova, a Escola Municipal José Maria Alkmin brilhou novamente com seus alunos. Três jovens do Ensino Fundamental também trouxeram medalhas nacionais de Jiu-Jitsu para casa. Foram eles os irmãos Abel Haim Ferreira da Silva (9 anos) e João Lucas Silva Vasconcelos Vieira (11 anos) e a estudante Kamilly Victória Marques Gonçalves (12 anos).

Todos participaram da 30ª Edição do Campeonato Brasileiro Interclubes da Liga de Jiu-Jitsu.

Kamilly concorreu pela categoria infantil peso leve feminino e conseguiu o primeiro lugar, enquanto Abel lutou na categoria mirim pena e também levou o ouro. João participou com afinco pelo infantil leve masculino e ficou em terceiro lugar, com o bronze.

Kamilly Victória Marques Gonçalves - Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre
Kamilly Victória Marques Gonçalves – Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre

A jovem Kamille ainda disputou o Panamericano, que também ocorreu no ginásio poliesportivo de Betim, e trouxe para casa a medalha ouro na mesma categoria. Ela não concorreu como profissional absoluto e conta que as lutas duraram 21 segundos e 38 segundos, respectivamente. Apoiada pela mãe, Jéssica, a garota continua reunindo medalhas.

Os irmão Abel e João contam que o interesse no esporte já existia antes de poderem participar das turmas na escola. O pai dos garotos, Luiz Gustavo Ferreira, praticava Jiu-Jitsu e, atualmente, é barbeiro e coach em inteligência emocional (IEM). O interesse da família impulsiona a participação e frequência em torneios.

Assim como Esther, os jovens precisam da ajuda de pessoas para conseguirem kimonos de Jiu-Jitsu, os quais muitas vezes são passados de alunos(as) para alunos(as) ou a escola providencia.

A equipe que integra os jovens da E. M. José Maria Alkmin é chamada “Leozinho Fight Team”, do professor Leozinho, que é faixa preta pela academia Gracie Barra Santa Inês.

Há quatro anos, o professor Leozinho desenvolve em colégios o projeto “Efésios 3:20” para alunos(as) que queiram aprender Jiu-Jitsu. Foi assim que os alunos da Escola Municipal José Maria Alkmin iniciaram a jornada pelo desporto, incentivados, também, pelos pais.

Medalhas acumuladas por Abel e João - Foto: Luiz Gustavo Ferreira
Medalhas acumuladas por Abel e João – Foto: Luiz Gustavo Ferreira

Uma escola sadia

Segundo Leonardo Felipe Ramos, de 31 anos, faixa-preta no desporto (mais conhecido pelo apelido Leozinho), os alunos participam de ligas em que ele é inscrito. Existem várias ligas no Brasil, e eles concorreram pela Liga Brasileira de Jiu-Jitsu.

As ligas são responsáveis por registrar, legalizar, fiscalizar e organizar os torneios. Os últimos em que os alunos da E.M. José Maria Alkmin participaram foram a 30ª Edição do Campeonato Brasileiro Interclubes de Jiu-Jitsu e o Panamericano Interclubes de Jiu-Jitsu, o qual Kamilly e Esther (aluna do professor Israel) concorreram.

Os torneios reúnem as equipes montadas por professores do todo Brasil e as conquistas são individuais, por isso, as vitórias obtidas pelos jovens de Venda Nova dentro da liga são nacionais.

Questionado sobre a experiência com o Jiu-Jitsu, o professor Leozinho explicou que o esporte ainda é considerado caro, pois tem o valor de cadastro nos torneios, o preço das carteirinhas e ligas e o custo das viagens. Por isso, a família é tão importante. Sem o apoio dos pais, fica muito difícil que o aluno continue.

“Os alunos começam novos, abandonam e quando conseguem se manter, retornam mais velhos para treinarem. Quando a família apoia desde o início, fica muito mais simples, mas isso é uma exceção, pois as pessoas acham que não dá para viver do desporto. Falta mostrar que dá para viver do esporte”, diz o professor Leozinho.

Alunos do professor Leozinho na E. M. José Maria Alkmin - Foto:  Professor Leozinho
Alunos do professor Leozinho na E. M. José Maria Alkmin – Foto: Professor Leozinho

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O projeto encabeçado por Leozinho na E.M. José Maria Alkmin abriga 40 alunos, de seis a 15 anos de idade, mas não existiria se não fosse o apoio da escola. Sem a escola, os alunos não teriam o material básico para o treino, que é o local, o kimono, as faixas.

Os valores de kimonos infantis giram em torno de R$80, enquanto o adulto chega cerca de R$150. Em comparação com as camisas de clubes de futebol, que são compradas apenas para representarem o amor do torcedor, o material tem custo inferior.

Ainda assim, o esporte, tão crucial para o universo acadêmico, segue no meio juvenil sustentado pelo altruísmo. “O número de brigas diminuiu na escola e por isso o projeto é muito importante. Tenho muitos alunos ali que, se não fosse o Jiu-Jitsu, não estariam onde estão”, conta o professor Leozinho.

Atualmente, conforme o professor, as disputas são divididas primeiro por idade (pré-mirim, mirim, infantil, infanto-juvenil, adulto, master) e peso (mosca, pluma, pena, leve, médio, meio-médio, pesado, super pesado, pesadíssimo). Os campeões enfrentam chaves de “mata-mata” até chegarem ao título que hoje exibem.


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Jornalista graduado pelo Centro Universitário de Belo Horizonte — UniBH (2017), jornalista editor no Jornal Norte Livre com passagem pelo Jornal Daqui BH, ambos parceiros hiperlocais do Portal Uai/Diários Associados. Professor e sócio na empresa "Quando - Fábrica de narrativas", conteudista, SEO (Search Engine Optimization), videomaker, fotógrafo e entusiasta como ilustrador, desenvolvedor web e animador 2D. "Os livros são o templo do jornalista, mas é nas ruas que ele congrega". Will Araújo