Renata Mara apazígua ânimos dos comerciantes - Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre
Renata Mara apazígua ânimos dos comerciantes - Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre
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Nesta quarta-feira (19), às 9h, a Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura  (Smobi) e a Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap), na figura de Renata Mara, engenheira civil fiscal, estiveram em Venda Nova, no Bairro Santa Mônica, para conversarem com a comunidade sobre as intervenções necessárias à continuidade das obras de tratamento de fundo de vale e controle de cheias das sub-bacias dos córregos Marimbondo e Lareira. O empreendimento prevê a interdição de trecho da Rua Ministro Oliveira Salazar para implantação de manilhas. Entretanto, comerciantes locais, temendo por prejuízos, impediram na terça-feira (18) que as atividades prosseguissem.

De acordo com os comerciantes, no dia anterior à reunião, máquinas da empresa Engibrás Engenharia S/A chegaram entre 10h e 12h, impediram o tráfego de veículos e começaram a descarregar manilhas na Rua Ministro Oliveira Salazar esquina com Rua Dr. Álvaro Camargos. A operação gerou caos e o engarrafamento no entorno ultrapassou a um quilômetro, afetando as atividades locais.

Manilhas ocupam ciclovia na Rua Ministro Oliveira Salazar - Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre
Manilhas ocupam ciclovia na Rua Ministro Oliveira Salazar – Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre

A operação foi considerada desrespeitosa pelo comerciantes, os quais agiram para que as atividades não continuassem. Segundo relatos, um smartphone de um trabalhador da PBH, inclusive, foi quebrado no calor das manifestações.

Conforme Renata Mara, em reunião com os moradores, houve erro em não informar previamente a comunidade sobre a interdição e as obras não começariam enquanto a conversa não acontecesse. Os comerciantes, por sua vez, alegaram que seria inviável a eles que o fluxo da via fosse pausado, pois afetaria diretamente no desempenho dos negócios.

“Caso vocês interditem tudo isso aqui, eu já posso passar as notas de dispensa dos funcionários?”, questionou Frederico Santos, proprietário do posto de combustíveis Rede Macpetro em alusão ao prejuízo que a interdição causará.

A engenheira explicou que a via precisaria ser interditada por inteira e que a Empresa de Transportes e Trânsito de Belo Horizonte (BHTrans) já havia estudado os desvios. Todavia, poderiam fazer a obra em etapas, abrindo e tampando a via à medida que as manilhas fossem colocadas para causar menos impacto.

Mais comerciantes se aglomeraram no local da reunião e o engenheiro da Engibrás responsável pela obra, Geraldo V. Figueiredo, apareceu para detalhar os passos da interdição.

Segundo Geraldo, a Rua Ministro Oliveira Salazar será aberta no centro, entre as ruas Dr. Álvaro Camargos e Gonçalves Magalhães. Como uma das laterais será usada para depositar os materiais e a outra para as máquinas, apenas o trânsito local será permitido — sem passagem de linhas de coletivo e demais tráfegos. A previsão para finalização do trecho é de 30 dias, disse o engenheiro.

EM TEMPO (15h38, 19/02/2020): Segundo a Empresa de Transportes e Trânsito de Belo Horizonte, a Rua “Ministro Oliveira Salazar é uma importante via de ligação entre os bairros Santa Branca e Santa Mônica. Nos  horários de pico chega a ter uma média de 800 veículos/hora”.

Comerciante explica como a interdição da via afetará seu negócio - Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre
Comerciante explica como a interdição da via afetará seu negócio – Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre

A discussão

Os comerciantes então sugeriram que fossem usadas datas de menor fluxo, por exemplo os dias do carnaval. Solicitaram que a empresa responsável pela obra trabalhasse em dois turnos, com o dobro de funcionários, para minimizar o tempo de interdição.

Apesar de o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil, ter decretado pelo Diário Oficial do Município ponto facultativo para os dias de carnaval, a engenheira Renata Mara garantiu total disposição da PBH para obra durante o período e que os funcionários estariam lá todos os dias trabalhando. Desse modo, o ínicio de um acordo surgiu, com data para início da interdição para o sábado (22).

Todavia, quando o comerciante Alex Silva questionou a Geraldo se a Engibrás poderia trabalhar por dois turnos e durante todos esses dias, o engenheiro disse que não teria previsão para dois turnos e afirmou mais de uma vez: “eu não trabalho domingo”.

Geraldo explica a interdição da via - Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre
Geraldo explica a interdição da via – Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre

Daí em diante, os ânimos se alteraram, pois o comerciante Alex expôs a dúvida de como poderiam confiar na velocidade da obras, visto que, aparentemente, o engenheiro responsável havia voltado atrás no compromisso de trabalhar em todos os dias de carnaval.

Houve muitos xingamentos, insultos e ameaças de manifestações para que a obra não continuasse naquele ponto se não fosse cumprido o acordado. O engenheiro da Engibrás não disse mais nada, apenas saiu do local, andou até o veículo, deu partida e foi embora. Os comerciantes então começaram a questionar como seria possível confiar em quem não quer ouvir a comunidade.

“Hoje, a maioria das empreiteiras não concluem os serviços. Aí a obra fica parada vários anos esperando nova licitação. Aí acontece o que aconteceu aqui: o engenheiro responsável vira as costas e não quer nem ouvir a comunidade. É difícil confiar em uma pessoa que vira as costas para os comerciantes. Não temos nada contra a obra. Eu tenho é que agradecer a PBH pela atenção que estão dando à Vila, mas o problema empreiteiras. E ele (Geraldo) é pago com o dinheiro público”, disse o morador Wanderson Grey, que se identificou como vice-presidente da Associação Comunitária da Vila Nossa Senhora Aparecida, presente no Bairro São João Batista.

A engenheira Renata sugeriu então uma nova data para o início da interdição e obras no local, sendo segunda-feira (24) caso não chova muito. Alguns comerciantes, apesar de não satisfeitos, aceitaram o prazo. Contudo, houve o pedido, sob ameaça de agressões, de que a equipe da PBH que trabalharia no local fosse substituída por causa do episódio do dia anterior — considerado desrespeito pelos moradores.


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Prejuízos

O posto de combustíveis Rede Macpetro está situado na esquina das ruas Dr. Álvaro Camargos e Ministro Oliveira Salazar. Segundo Frederico, apenas o trabalho de descarregamento das manilhas na terça-feira já causou problemas. “Passam por aqui cerca de dois mil carros por mês. Aproximadamente, 150 pessoas dependem desse posto. O abastecimento com certeza vai cair”, disse o proprietário do comércio.

Conforme Jeferson Cardoso, proprietário da distribuidora de gás “Primeira Chama Gás”, “não podemos pensar somente em nossos umbigos, mas como vou entrar com caminhão aqui para descarregar o gás? A empresa vende cerca de 200 unidades por dia na entrega em domicílio e 30 aqui na porta. Com a interdição, a venda na porta será afetada em 80%, pois quem vai vir na poeira comprar o gás”, disse o empresário.

No caso de Alex Silva, proprietário da mecânica e “Alinhamento Alex”, o número de serviços cairá cerca de 60%. Segundo o empresário, “é poeira demais e ninguém vai querer vir aqui. É por isso que o Brasil não vai pra frente. A conversa foi combinada, mas foi só dizermos para dar a palavra que ele (Geraldo) voltou atrás. Ainda foi embora. A conversa fez curva”.

“Para mim, a comunidade não pode aceitar assim não. É só a PBH dizer um prazo e aceitamos e vamos embora? E qual o compromisso dele (Geraldo) com a gente? Começar na segunda-feira não é bom, mas não tenho outra opção. Eu aceito porque não tenho opção”, disse Alex.

Paulo Barzel é uma das lideranças do Bairro Santa Mônica e foi quem convidou a equipe de reportagem para comparecer ao local. Questionado se estava satisfeito com o início das obras na segunda-feira (24), disse que “tudo tem que ser conversado, mas o acordo não pode ser descumprido. Eu fico satisfeito que as obras continuem andando, que pelo menos comecem. Se for na segunda-feira, não tem jeito, mas vamos fiscalizar do início ao fim”.

As obras

O empreendimento faz parte do Programa de Aceleração do Crescimento (Pac 2) com contrapartida do Fundo Municipal de Saneamento e terá até a conclusão o investimento de cerca de R$ 40 milhões de reais. O projeto e as obras se arrastam desde 2011 e servirão para mitigar as enchentes ocorridas na região, além de tratar o fundo de vale dos córregos Marimbondo e Lareira.

O Jornal Norte Livre acompanha o andamento do empreendimento desde março de 2018, quando ainda estava pausado e sem datas para sair do papel. Desde então, foram várias desapropriações, cobranças da comunidade, lutas por direito e novos andamentos e orçamentos. Atualmente, a previsão de entrega das obras é para o final de 2020.

Questionada sobre a interdição da Rua Ministro Oliveira Salazar e sobre o projeto, a Superintendência de Desenvolvimento da Capital envio a seguinte nota:

“A Prefeitura informa, por meio de Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap), que as obras do Córrego Lareira estão em andamento cumprindo o cronograma previsto, já tendo sido executadas a rede de drenagem das ruas Augusto Franco, Oscarlina de Menezes e Hye Ribeiro, além da regularização do leito natural entre a avenida Álvaro Camargo e a rua Augusto Franco, e também a travessia em canal fechado na rua Augusto Franco.
Já na rua Maria de Lourdes Carreira foram executados dois muros de gabião. Na rede interceptora na margem esquerda, paralela ao Córrego Lareira, as obras já foram iniciadas e dentro da Vila São João Batista, a execução da rede coletora está 70% finalizada. Parte das obras estão aguardando a cessação das chuvas para prosseguimento dos trabalhos. A previsão de entrega das obras é para o final de 2020”.


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Jornalista graduado pelo Centro Universitário de Belo Horizonte — UniBH (2017), jornalista editor no Jornal Norte Livre com passagem pelo Jornal Daqui BH, ambos parceiros hiperlocais do Portal Uai/Diários Associados. Professor e sócio na empresa "Quando - Fábrica de narrativas", conteudista, SEO (Search Engine Optimization), videomaker, fotógrafo e entusiasta como ilustrador, desenvolvedor web e animador 2D. "Os livros são o templo do jornalista, mas é nas ruas que ele congrega". Will Araújo

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