Hipódromo Serra Verde em funcionamento - autor e data indefinidos - Fonte: internet
Hipódromo Serra Verde em funcionamento - autor e data indefinidos - Fonte: internet
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O ano é 1978. Após uma semana quente e seca, as pessoas se preparam para curtir a tarde do sábado. Vestem calças boca-de-sino justas e sapatos com pequenos saltos. Muitas mulheres preferem usar sandálias ou rasteirinhas. Os homens são afrontosos, enquanto desfilam com camisas sociais xadrezes e alguns botões abertos. Eles partem em seus Fuscas, Kombis, Fiats 147, Brasílias, Panoramas e Fords Rurais e vão em direção ao Bairro Serra Verde, em Venda Nova.

Dirigem por uma via solitária e entram no portão grande e aberto. No estacionamento, o colorido dos carros questiona a predominante cor verde e amarela da paisagem. Diante deles está um galpão alto e sem a parede de fundo, o qual tem à direita as bilheterias e guichês de apostas da tribuna.

Hipódromo Serra Verde - data indefinida - Foto: Vitório Marilena
Data indefinida – Foto: Vitório Marilena

Os casais e filhos passam pela porta de vidro da esquerda, olham para o lado e encontram lanchonetes e restaurantes por entre as cadeiras e mesas dispostas no platô. Mais à frente, o teto com longas telhas de amianto se estende para cima do que é uma pequena arquibancada de sapé. O sol está forte. Os pais com seus binóculos fazem as apostas, as mães e filhos compram a comida e todos descem para assistir ao páreo — uma corrida de cavalos em raia oval.

Um estampido! “Atenção, foi dada a largada”. O narrador da Rádio Minas acompanha tudo em uma torre e com o binóculo específico. As pessoas torcem, amassam os bilhetes, a poeira da pista de areia forma uma nuvem . Fim da corrida. O espelho da pista revela o cavalo e o jóquei campeões, os quais posam para a foto ao lado do(a) proprietário do animal, do treinador e, por vezes, dos ganhadores do prêmio.

Foto: Carlos Rienkhi - Acervo pessoal do joquéi J. Gouvéia - Hipódromo Serra Verde - 1984
Foto: Carlos Rienkhi – Acervo pessoal do joquéi J. Gouvéia – Hipódromo Serra Verde – 1984

Esse cenário da turfe — corrida de cavalos — foi comum em Venda Nova de 4 abril de 1965, data da inauguração do Hipódromo Serra Verde, fundado pelo Jockey Clube de Minas Gerais, até 7 fevereiro de 2002, quando ocorreu o último páreo no local. Ali aconteceram vários Grandes Prêmios (GPs), o primeiro em 1970. Neste período, a região foi uma referência para o restante do país.


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Antes disso, de 1906 a 1951, com maior frequência entre 1939 e 1942, as corridas aconteciam no Hipódromo Prado Mineiro, local onde hoje existe a Academia da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), no Bairro Prado. Durante o tempo em que os sócios e os proprietários do antigo hipódromo buscavam locais para construir a nova pista, cerca de 14 anos, houve a incorporação do Jockey Club de Belo Horizonte pelo Jockey Club de Minas Gerais, que passou a ser o único clube de turfe para o estado e autorizado pelo Ministério da Agricultura em 1967. Naquele tempo, eles avaliaram um terreno no Bairro Planalto, mas o do Bairro Serra Verde venceu as expectativas.

A pista oval de 1,8 mil metros era de areia e comportava 12 corredores (partidores ou boxes) simultâneos. No centro, o Córrego Floresta foi represado e formou um pequeno açude. A tribuna se erguia imponente em frente ao espelho de chegada do circuito, e em uma das pontas estava o placar e outdoors. Nos tempos áureos, as pessoas se aglomeravam, também, ao redor das cercas da pista.

Grande Prêmio de Minas Gerais - Governador Hélio Garcia - 1993 - Foto: Totone Aguiar
Grande Prêmio de Minas Gerais – Governador Hélio Garcia – 1993 – Foto: Totone Aguiar

Desde de 2007, a Cidade Administrativa, sede do governo mineiro, ocupa o lugar. A raia foi fechada, a tribuna demolida, o kartódromo acabou e as trilhas de motocross não existem mais. A única lembrança palpável do antigo Hipódromo Serra Verde são as lagoas, que permanecem refrescando a memória dos moradores.

O lazer das cercanias

Dona Inês M. A. de Carvalho e o esposo, o senhor Joaquim, chegaram em Venda Nova em 1969. Há mais de 20 anos, ela é presidente da Associação Comunitária do Bairro Serra Verde e recorda dos momentos em que esteve no hipódromo. Adorava o jardim e relata, inclusive, como o local fazia parte do lazer da região.

O senhor Joaquim lembra das telhas de 12 metros que faziam a cobertura da tribuna e das cercas brancas que contornavam a raia. As pessoas ficavam em volta da pista para ver a corrida.

O casal assume não ter frequentado tanto o lugar quanto poderia, mas disse ter acompanhado o auge das corridas, os momentos de crise, a troca de proprietários, a inauguração do centro esportivo e a criação do kartódromo e pista de motocross, que serviram aos donos, de 1995 a 2002, como recurso para manter o hipódromo.

Inês e o marido tinham o hábito de caminhar com os filhos e recordam bem a entrada do lugar. “No final da Alameda José Maria Alkimin, a via ficava mais larga e tinha um grande portão. Do lado esquerdo, tinha o prédio da Rádio Minas, acho, e do lado direito uma árvore muito bonita… Lindíssima. Lembro que quando a cortaram falei com eles: ‘ô gente, não faz isso não. Deixem essa árvore’”, lembra a senhora.

O casal conta que no fim das atividades do hipódromo, a paróquia do bairro e a associação comunitária conseguiram autorização dos proprietários para celebrarem as missas da Semana Santa embaixo da tribuna. “As arquibancadas já estavam em ruínas, mas fazíamos a encenação bem no espaço à frente, em um tablado improvisado”, diz D. Inês. Tempos depois, foram para a entrada e todo mês ocorria uma missa.

“Além disso, na época de calor, muitas pessoas iam nadar nas lagoas que ficavam no Jockey Club (hipódromo). Tinha um lago ao fundo em que muita gente se afogou e morreu lá. Outra pessoas entravam e faziam caminhada em volta da antiga pista de corrida”, afirma o senhor Joaquim.

J. Gouveia - novembro de 1988 - Hipódromo Serra Verde - Fonte: Acervo pessoal de J. Gouveia
J. Gouveia – novembro de 1988 – Hipódromo Serra Verde – Fonte: Acervo pessoal de J. Gouveia

O hipódromo servia também a outras famílias como moradia, como é caso do casal Manoel Matos e Geralda Matos. No início da década de 2000, o senhor veio de Governador Valadares, no Vale do Rio Doce, e morou com a esposa na casa dos treinadores de cavalo, que ficava no fundo das cocheiras – lugar de armazenamento dos cavalos. Ele trabalhou como cavalariço, uma espécie de cuidador de equinos, e fez parte da equipe criada por Fernando, chefe da segurança.

Manoel lembra que para entrar na casa precisava atravessar essas cocheiras. Tinham muitos padoques (local usado para preparar os cavalos) espalhados pelo hipódromo. Um deles ficava abaixo e atrás do estacionamento.

Mesmo após as corridas terem acabado em 2002, ele continuou fazendo parte da equipe de segurança até 2007. Atualmente, mora com a esposa e filho logo atrás do estacionamento da Cidade Administrativa, em uma estrada com acesso pela alameda. Nos fundos da casa de Manoel, ainda existe a lagoa que muitos usaram para se refrescar.

A história de um jóquei em Venda Nova

Na busca por relatos no Bairro Serra Verde, encontramos Jésio Gouveia Damasceno, mais conhecido por J.Gouveia. A fama do segundo nome se deu pela época em que disputava as corridas como jóquei nos hipódromos brasileiros. No meio turfista, os atletas são anunciados com a abreviação do primeiro nome.

Natural de Paracatu, Região Noroeste de Minas Gerais, Gouveia começou a competir aos 14 anos de idade. Seu pai, um treinador de cavalos, colocou, praticamente, todos os filhos na profissão. Dos seis irmãos homens, cinco viraram jóqueis e o outro, hoje, é transportador de equinos.

J .Gouveia ao centro, ao lado do pai, familiares e amigos - Paracatu - 1985 - Fonte: Acervo pessoal de J. Gouveia
J .Gouveia ao centro, ao lado do pai, familiares e amigos – Paracatu – 1985 – Fonte: Acervo pessoal de J. Gouveia

Gouveia conta que a figura do treinador é similar à do técnico de futebol. É ele, com a ajuda do cavalariço, que doma o cavalo e o faz correr. O proprietário do animal nem sempre é esse especialista e pode não ter tanta experiência quanto o profissional. Por isso, é comum que os treinadores sejam contratados.

O jóquei é o atleta de confiança dos treinadores ou dos proprietários, disputa as provas e tem os atributos necessários para montar: máximo de 55 quilos para correr com uma égua e 57 quilos para ir com cavalos. A altura e idade não são limitadas, mas como os corredores precisam ter pouco peso, é comum que tenham pouca estatura.

O peso do cavalo em si, pode não interferir na corrida. “Ele pode pesar 500 quilos, 410 quilos, 460 quilos, e não vai ter muita diferença. Só que, geralmente, o cavalo mais pesado tem problemas de locomoção. Ele manca mais cedo”, diz Gouveia.

J. Gouveia recebe os cumprimentos por vencer um páreo - Vitório Marilena - Fonte: Acervo pessoal de J Gouveia
J. Gouveia recebe os cumprimentos por vencer um páreo – Vitório Marilena – Fonte: Acervo pessoal de J. Gouveia

No caso de Gouveia, como atuava como cavalariço, o pai o colocou para correr como jóquei. Ele tinha 42 quilos e conta que a primeira montaria foi em um cavalo bravo em Paracatu. “A gente, quando vai aprender, tem que ir no mais dócil. Com ele (o pai), os filhos tinham que ir no mais bravo. Esse cavalo tinha um nome horrível: ele se chamava ‘Cacete’. Era chato e bravo. Ele me deu uma canseira! Na minha estreia eu não ganhei… acho que entrei em terceiro lugar”, recorda o jóquei.

A primeira vitória de J. Gouveia aconteceu após a quarta corrida, também em Paracatu, com o cavalo “Anakin”.

Primeira vitória de J. Gouveia - cavalo Anaquim - 1970 - Fonte: acervo pessoal de J. Gouveia
Primeira vitória de J. Gouveia – cavalo Anaquim – 1970 – Fonte: acervo pessoal de J. Gouveia

No início da década de 1970, Gouveia veio ao Hipódromo Serra Verde e assistiu algumas corridas. Ele viajou muito para os “Grandes Prêmios”. Essas disputas abriam espaço para que hipódromos de todas as localidades pudessem competir. Conta que o início no hipódromo Serra Verde foi bem difícil, pois a pista recebia muitos jóqueis do Rio de Janeiro, São Paulo e outras cidades. Existia uma espécie de “panelinha”, na qual só corriam aqueles que já eram conhecidos e cotados no Jockey Club.

Após algum tempo insistindo, Gouveia conheceu Faustino Costa, um treinador espanhol que estava no lugar com cavalos do Rio de Janeiro. O técnico cedeu algumas oportunidades e ele começou a vencer.

Da esquerda para direita: Fautino Costa, Dr. Ademar Cadar, J. Gouveia e Dr. Francisco E. de Paulo - Cavalo El Cancho - 1984 - Fonte: Acervo pessoal de J. Gouveia
Da esquerda para direita: Fautino Costa, Dr. Ademar Cadar, J. Gouveia e Dr. Francisco E. de Paulo – Cavalo El Cancho – 1984 – Fonte: Acervo pessoal de J. Gouveia

A partir dali, outros treinadores, apostadores e proprietários começaram a ganhar confiança em Gouveia. Faustino tinha muitos cavalos bons, os quais eram de um bicheiro do Rio de Janeiro. Por outro lado, o jóquei também era competente. Por isso, quanto mais cavalos ele levasse para correr na raia, mais oportunidades apareceriam.  Em um destes dias, houve sete páreos, dos quais o jóquei venceu seis e chegou em segundo lugar na última corrida.

A primeira vitória de Gouveia em Brasília é um exemplo de como aconteciam as turfes. À época e lugar, um treinador estava com dois cavalos e tinha um atleta preferido. Desse modo, disse ao corredor mineiro que o outro jóquei escolheria primeiro e o que sobrasse ele poderia montar. Todavia, ao fim do páreo, Gouveia venceu.

Hipódromo Serra Verde - década de 1990 - Fonte: Acervo pessoal J. Gouveia -
Hipódromo Serra Verde – década de 1990 – Fonte: Acervo pessoal J. Gouveia –

No momento da montagem da programação, acontecia a chamada para os cavalos com uma vitória na carreira, duas, três, quantas estivessem estipuladas pela enturmação. O treinador então inscrevia seus animais e o jóquei que os montaria. Em um dia comum, poderiam ocorrer vários páreos, contendo cinco, sete, oito, dez e até 12 cavalos simultâneos nos boxes.

Em 1993, J. Gouveia venceu o Grande Prêmio de Minas Gerais em um páreo de 12 com o cavalo Pendragon. Na data, inclusive, quebrou o recorde das raias de 1,8 mil metros, baixando o tempo para 115 segundos. Das 18 vitórias do cavalo em Minas, 15 foram com o jóquei.

Grande Prêmio de Minas Gerais - Governador Hélio Garcia - 1993 - Foto: Totone Aguiar
Grande Prêmio de Minas Gerais – Governador Hélio Garcia – 1993 – Foto: Totone Aguiar

Gouveia conta que o Pendragon era um cavalo que não gostava de sair do box. “Era um problema que o fez perder muitas vezes. No dia do GP, precisamos de mais pessoas para fazer ele largar: um para puxar pra frente, outro para atiçar ele atrás. Entretanto, deu certo e vencemos a corrida de ponta a ponta”, recorda o jóquei.

O hipódromo era mantido pelas apostas, as quais geravam um valor por páreo. Poderiam existir patrocínios, mas eram menos comuns. Após a corrida, acontecia um rateio para manter o lugar e o Jockey Club de Minas Gerais. Um percentual pagava o prêmio, o qual era dividido entre o proprietário, treinador, segundo-gerente, jóquei e cavalariço. O restante era dado ao apostador ganhador.

Gouveia continua no apartamento que comprou no Bairro Serra Verde. O local foi adquirido por meio da venda de um cavalo, que resultou em um carro modelo Chevette e em seguida no imóvel. A esposa, senhora Luísa, é tratada como seu porto seguro e também acompanhou o jóquei nos páreos pelo país. Eles estão casados há 44 anos.

J. Gouveia com Luisa e filhos - autor e data indefinida
J. Gouveia com Luisa e filhos – autor e data indefinida
Grande Prêmio José Paulino Nogueira - Joquéi A. Mendes
Grande Prêmio José Paulino Nogueira – Joquéi A. Mendes (filho de J. Gouveia)

Dos cavalos que Gouveia montou, Xatonaby e Pendragon foram dois dos que mais venceram páreos no Hipódromo Serra Verde. Ele virou treinador e acumula cerca de 400 vitórias em Belo Horizonte, 350 em Paracatu, 40 em Goiânia, 80 em Brasília, três no Rio de Janeiro, 16 em Sobral (CE) e 16 em Fortaleza.

A estribação curta, as rédeas firmes e a sorte no número três foram passadas ao filho, que hoje, disputa mais páreos pelo país. Quando questionado se sente saudade, Gouveia disse: “sonho muito com tudo isso”.

J. Gouveia - Foto: Will Araújo - Jornal Norte Livre
J. Gouveia – Foto: Will Araújo – Jornal Norte Livre

Agradecimentos especiais

A história só pode ser eternizada se alguém tiver a paciência de admirar o presente e absorvê-lo com tanta intensidade que, mesmo após vários anos, não consiga esquecer. Por isso, nosso agradecimento especial vai para todos aqueles que colaboraram de alguma forma com esse registro de Venda Nova.

Obrigado, Vagner Silva, por indicar a senhora Inês. Obrigado, senhora Inês e senhor Joaquim, por me receberem e indicarem a família Matos. Obrigado, senhor Manoel de Matos, senhora Geralda de Matos e seu filho Anderson de Matos, por me receberem e buscarem comigo, pelas ruas, a casa do senhor J. Gouveia; obrigado, senhor J. Gouveia e senhora Luisa, por abrirem suas portas e contarem essa linda história.


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Jornalista graduado pelo Centro Universitário de Belo Horizonte — UniBH (2017), jornalista editor no Jornal Norte Livre com passagem pelo Jornal Daqui BH, ambos parceiros hiperlocais do Portal Uai/Diários Associados. Professor e sócio na empresa "Quando - Fábrica de narrativas", conteudista, SEO (Search Engine Optimization), videomaker, fotógrafo e entusiasta como ilustrador, desenvolvedor web e animador 2D. "Os livros são o templo do jornalista, mas é nas ruas que ele congrega". Will Araújo