Unidos da Zona Norte tenta ganhar espaço no carnaval de Belo Horizonte. Foto: Acervo Belotur/Júlia Lanari e André Fossati.

Repercutiu nessa segunda-feira (25) uma carta escrita por seis dos maiores blocos do carnaval de BH sobre a falta de apoio do poder público aos profissionais da festa de rua. As agremiações cobravam algum retorno da PBH, já que muitas pessoas dependem da folia para sobreviver.

Diante de tal manifesto, o Jornal Norte Livre ouviu pessoas ligadas às agremiações carnavalescas de Venda Nova. O objetivo era para saber como elas esperam passar o ano sem uma data definida para a realização da folia.

O bloco caricato Unidos da Zona Norte está entre os prejudicados pela não realização do carnaval por causa da pandemia. José João Gualberto Filho, o Janjão – presidente e intérprete do grupo –, conta que as contas não param de chegar.

“A gente estava até vendo com a Belotur (Empresa Municipal de Turismo de BH), porque tem que pagar imposto, certidão negativa (de débito), contador, mão de obra que você contrata. Não tem mais dinheiro”, afirma.

De acordo com Janjão, a prefeitura transferiu R$ 50 mil para cada bloco caricato da cidade no carnaval passado. Ele defende um maior equilíbrio entre as verbas das escolas de samba e dos caricatos.

“O ideal era que os blocos ficassem com 50% das verbas que as escolas de samba ganham. Mas, não chega nem perto disso”, diz.

Para comparar, a Acadêmicos de Venda Nova recebeu R$ 200 mil da PBH. Esse dinheiro serviu apenas para o gasto no desfile na Avenida Afonso Pena. O grupo também tem o São João Batista como sede.



De menor expressão e ainda novo na cena carnavalesca de BH, o bloco Vejo Flores em Você ficou praticamente sem renda. “Uma professora do Sesc abraçou nosso projeto, nossa regente Nety Barros. Mas, não conseguimos realizar nenhum treino nem ensaio esse ano. Estamos praticamente parados de tudo, sem patrocínio. Dependemos de edital”, diz Cláudia Flores, uma das responsáveis pela agremiação.

No ano passado, o Vejo Flores em Você conseguiu entrar no edital de apoio da prefeitura ao carnaval. Depois da pandemia, a agremiação se inscreveu na Lei Aldir Blanc para conseguiu auxílio do governo federal, por meio da PBH.

Porém, apesar de ter avançado duas etapas, o bloco não conseguiu assinar o contrato. “A gente não foi chamado. Mandei vários e-mails. Não recebemos, pelo menos até agora, nenhuma notificação nem verba. Então, o bloco está parado”, afirma.

De acordo com Cláudia Flores, as atividades do bloco se voltaram basicamente a alguns encontros on-line e vídeos caseiros. Tudo isso para manter algum trabalho social para garantir pontuação para futuros editais.

“O bloco recebeu uma pequena doação, mas uma família que faz parte do bloco tem dificuldades financeiras e problemas de saúde. As oito pessoas dessa família pegaram COVID-19. Então, a gente doou esse dinheiro”, completa Cláudia Flores.

Para William Claudino, do Bloco Formigueiro Quente, também de Venda Nova, a pandemia prejudicou a manutenção dos profissionais do carnaval.

Ele afirma que está “na luta há 28 anos”, fazendo tudo “tirando do bolso”. “Tentamos ter acesso à Lei Aldir Blanc, mas não conseguimos. É muito burocrático. Sempre as mesmas pessoas são privilegiadas, do Centro-Sul da cidade”, afirma.

De acordo com William, todos os instrumentos do bloco foram fabricados por ele mesmo. “Gostaria que Venda Nova fosse ouvida, principalmente o Bairro Mantiqueira, onde estamos há 28 anos com o bloco e a mais de 50 com a quadrilha”, diz.

Pedido de socorro sem carnaval

Nessa segunda, os blocos Chama o Síndico, Então Brilha, Havayanas Usadas, Me Beija Que Eu Sou Pagodeiro, Sagrada Profana e Samba Queixinho divulgaram um manifesto para cobrar apoio da prefeitura.

“É injusto que a prefeitura e o governo do estado tenham arrecadado tantos impostos com o renascimento do carnaval de rua, mas no momento de dar um mínimo de suporte àqueles que foram os protagonistas deste fenômeno, nada façam”, destaca o texto.

Os grupos também lembraram o lucro obtido por empresas privadas com a festa de rua. Portanto, também cobraram ações dessas companhias, sobretudo as de cerveja.

PBH se posiciona

Em nota, a Empresa Municipal de Turismo de Belo Horizonte (Belotur) informou que a Prefeitura de Belo Horizonte, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Fundação Municipal de Cultura, beneficiou profissionais do carnaval a partir da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc.

Foram R$ 657 mil repassados por meio do edital do governo federal em 2020, conforme dados da prefeitura.

Mas, para o manifesto dos blocos de carnaval, esse recurso foi “insuficiente”. “Sobre os valores recebidos, recaíram pesados impostos restando quantias tímidas frente aos gastos necessários”, informa o texto.

“Além disso, a falta de especificidade à realidade do carnaval constitui-se outro complicador para acessar os valores”, completam os blocos.

Dos R$ 657 mil, segundo a prefeitura, R$ 147 mil foram para “manutenção de espaços culturais, micro e pequenas empresas, cooperativas, instituições e organizações comunitárias”. Foram 23 proponentes diferentes.

O restante seguiu para a “realização de editais, chamadas públicas ou prêmios para repasse dos recursos”.

Leia abaixo a nota da prefeitura na íntegra:

A Prefeitura de Belo Horizonte segue focada nas ações de combate à pandemia e, por meio da Belotur, tem mantido o diálogo constante com toda a cadeia produtiva do carnaval de Belo Horizonte.

Informa ainda, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e da Fundação Municipal de Cultura, que, através da implementação dos benefícios da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc, foram contemplados profissionais e grupos ligados ao Carnaval de Belo Horizonte.

Eles foram beneficiados com o total de R$ 657 mil, ainda em 2020. Desse valor, foram repassados R$ 147 mil a 23 proponentes do setor aprovados no inciso II da Lei, que diz respeito ao repasse do subsídio emergencial para a manutenção de espaços culturais, micro e pequenas empresas, cooperativas, instituições e organizações comunitárias que atuam no setor cultural.

Outros R$ 510 mil reais foram destinados a 12 proponentes por meio do Edital de Premiação da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc, correspondente à implementação do inciso III da Lei, que previa justamente a realização de editais, chamadas públicas ou prêmios para repasse dos recursos.

Entre os beneficiados pela Lei Aldir Blanc em Belo Horizonte, estão blocos e escolas de samba tradicionais, das diversas regiões da cidade, incluindo o Bloco Caricato Os Inocentes de Santa Tereza, o Grêmio Recreativo Escola de Samba Imperatriz de Venda Nova, a Fanfarra Feminina Sagrada Profana, o Bloco Afro Angola Janga e o Então Brilha, entre muitos outros.

A relação com todos os contemplados na Lei Aldir Blanc pode ser acessada na página pbh.gov.br/leialdirblanc.  

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3 COMENTÁRIOS

  1. Boa noite cidadãos de BH ! Muitas pessoas não sabem , mas , a verba destinada ao carnaval não é VERBA PÚBLICA . E, através dessa verba patrocinada há um aumento de arrecadação para o município . Infelizmente algumas pessoas ainda tratam ARTISTAS como VAGABUNDOS , e é por isso que tudo vai para o Rio , SP , BA , etc…
    A ARTE é um VEÍCULO que consegue tirar pessoas do crime , da rua e mostrar o seu município para o mundo .

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