Ilustração: Teresa M - Amiga de Anna Luisa
Ilustração: Teresa M - Amiga de Anna Luisa
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Em 15 de novembro de 2018, primavera e período central da temporada de chuvas em Minas Gerais, um temporal com 96 milímetros de precipitação desceu sobre Belo Horizonte e, especificamente, em Venda Nova. Na ocasião, quatro pessoas faleceram; entre elas estava Anna Luisa, de 16 anos. A mesma estação que dá colorido às árvores, trouxe drama a várias famílias.

Após algum tempo, as vítimas viraram números para os órgãos públicos. Para combater esse esquecimento popular, conscientizar a sociedade sobre a proximidade da tragédia e prestar homenagem aos familiares, contaremos a seguir a curta história da jovem Anna Luisa, com base nos depoimentos cedidos gentilmente por Ana Maria, Edna Fernandes e Larissa — mãe, tia e prima (considerada irmã), respectivamente.

“Eu ainda não acredito, mas foi um propósito de Deus. Ela estará sempre presente. A presença dela é eterna. Eu sinto…
Antes daquilo, já tinham me perguntado o que faria se eu perdesse minha filha. Eu falei que não aguentaria. Mas, como ela dizia que sempre se inspirava em minha força, preciso ser mais forte ainda por ela”, disse Ana Maria.

Assim a mãe de Anna Luisa terminou de contar a história da filha. Do início ao fim, não se conteve em lágrimas. Chorou copiosamente. Nenhuma dor poderia ser maior.


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A filha sempre foi diferente… especial. Talvez, esse seja o fascínio de todas as mães. Todavia, Anna Luisa encantava a todos por onde passava. Era tímida, mas bem humorada. Jovial, porém madura. Amava ler; amava estudar; amava tudo e a todos à época em que estava aqui. Mesmo agora, ainda ama.

Os amigos e familiares nunca a viram triste. Desde pequenina tinha hábitos sensatos. Certa vez, aos nove anos, enquanto a mãe faria uma festa para toda família no aniversário da filha (que tem ao menos 30 tios e mais de 40 primos), Anna Luisa perguntou se não poderiam guardar um terço do dinheiro para comprar livros. Nas férias, gostava de ir à escola, o Instituto Padre Angélico Lipani, para ajudar os amigos que ainda precisavam de algumas aulas.

“Enquanto a maioria dos pais batalhavam para os filhos estudarem, comigo era o contrário. Eu precisava puxar para que a Anna Luisa parasse um pouco e descansasse”, disse Ana Maria.

Inicialmente, Anna Luisa queria fazer Arquitetura, mas depois se encantou por História. Antes de sair do instituto, disse à Ana Maria: “mãe, paga um curso para mim? Garanto que passo”. Dito e feito. Ela estudou no Chromos e foi aprovada em quarto lugar em Meio Ambiente no Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG).

Lá, deu vazão a outra paixão: o futebol. Gostava muito do clube Atlético Mineiro, jogava bola na equipe feminina do Cefet. Participava mesmo com as chuteiras novas apertando os pés. Para ela, não tinha tempo ruim. Dividia o dia entre estudar 19 disciplinas, praticar o esporte e vender “chup-chup” nos intervalos das aulas. Queria muito ajudar a aliviar as despesas.

Apostou com o pai que não namoraria antes de completar 18 anos. Ele combinou que se ela conseguisse, a presentearia com uma motocicleta. Seria como a música “Vital e sua moto”, dos Paralamas do Sucesso. Mas, ela não cumpriu. Pouco tempo depois, se apaixonou por um garoto. A mãe agradeceu, pois temia os perigos daquele tipo de transporte.

Fez amigas, amigos e mais irmãos e irmãs. A prima, Larissa, estava sempre com ela. As duas faziam uma festa. Anna Luisa adorava as sagas literárias e do cinema, como Harry Potter, Star Wars, Jogos Vorazes e outras. Quando foi na pré-estreia de um episódio da ficção espacial, chorou de felicidade… simples e delicadamente. Era uma flor.
Os parentes, vizinhos e amigos da família sempre elogiavam a garota para a mãe. Diziam que era um exemplo para os(as) próprios(as) filhos(as). Em outro ponto, Anna Luisa não gostava de ser o centro das atenções. Corria das fotos oficiais da escola.

Entre os primos, era vista como a apaziguadora de brigas, pois se dava bem com todos. Torcia pelo sucesso deles e se empenhava em ajudar quem precisasse. Sempre esteve presente para a família.

E então, repentinamente, Anna Luisa se foi.

Antes de completar a Crisma na paróquia Santo Antônio de Venda Nova. Antes de chegar à faculdade. Antes de noivar… casar. Partiu durante a primavera, como uma flor que cai sobre as águas de um riacho e é levada.

Anna Luisa - Foto: acervo pessoal dos familiares
Anna Luisa – Foto: acervo pessoal dos familiares

O fato

No dia 15 de novembro de 2018, um temporal atingiu Venda Nova e alagou algumas das principais vias da região, entre elas a Avenida Vilarinho e a Rua Doutor Álvaro Camargos, mais conhecida como antiga “12 de outubro”.

Anna Luisa retornava para casa com o namorado quando as águas começaram a subir na Rua Dr. Álvaro Camargos. O veículo parou repentinamente no meio da via e a garota abriu a porta do passageiro para fugir da cheia do córrego. Todavia, estava em cima de uma galeria destampada e sumiu nas águas.

Ela foi encontrada 18h depois, a quatro quilômetros do local.

Dez dias antes da tragédia, Anna Luisa, preocupada com o local em que morava, apresentou no Cefet um projeto de pesquisa para mapeamento das cheias na Regional: “Utilização de Técnica de Geoprocessamento para Análise da Susceptibilidade de Áreas de Inundações e seus impactos na Região de Venda Nova”. Segundo o professor orientador, o estudo de georreferenciamento estava submetido a um edital e poderia ajudar na busca por soluções para os bairros.


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Jornalista graduado pelo Centro Universitário de Belo Horizonte — UniBH (2017), jornalista editor no Jornal Norte Livre com passagem pelo Jornal Daqui BH, ambos parceiros hiperlocais do Portal Uai/Diários Associados. Professor e sócio na empresa "Quando - Fábrica de narrativas", conteudista, SEO (Search Engine Optimization), videomaker, fotógrafo e entusiasta como ilustrador, desenvolvedor web e animador 2D. "Os livros são o templo do jornalista, mas é nas ruas que ele congrega". Will Araújo