Maria Elisa e Roselita Soares, aluna do 9º ano e coordenadora da E.M. Gracy Vianna Lage, em Venda Nova: escola se preocupa com a igualdade racial no Dia da Consciência Negra. Foto: Divulgação/E.M. Gracy Vianna Lage.

Desconstrução de expressões racistas, valorização da beleza afro e discussão sobre o racismo. Esse é o tripé que compõe o trabalho da Escola Municipal Gracy Vianna Lage, em Venda Nova, em BH, contra o preconceito racial no mês em que se comemora o Dia da Consciência Negra (20 de novembro).

A escola está situada no Bairro Jardim dos Comerciários e sempre trabalhou a temática, segundo a diretora Thaís Matos. No mês de novembro, no entanto, a direção intensificou tal educação por meio de debates com especialistas no assunto e um festival da beleza afro.

“Tivemos a ideia de mobilizar os estudantes a partir de um festival da beleza negra (vídeo abaixo). A gente recebeu fotos dos alunos e eles puderam fazer ilustrações sobre o tema. Isso envolveu toda comunidade escolar”, afirma Thaís Matos.

De acordo com a diretora, o trabalho de longa data da Gracy Vianna Lage com a temática já trouxe resultado na identidade das estudantes. “Muitas alunas assumiram seus cabelos afro. Elas perceberam que os cabelos delas também podem ser bonitos, porém de uma maneira diferente. São resultados que a gente vê no dia a dia”, diz.

Lawanny, do 2º ano, assumiu o cabelo afro. Pequena estuda na E.M. Gracy Vianna Lage.

Neste dia 20 de novembro, Thaís também ressalta qual o papel da escola para a construção de um futuro menos racista no Brasil. Assim, ela defende que a educação tem como principal contribuição explicar ao estudante o que é preconceito racial. E deixar claro que ele está enraizado em nossa sociedade.

“O primeiro passo, a primeira contribuição da escola, é trazer esse conhecimento do que é a consciência negra. Desconstruir esse imaginário de que aqui não existe o racismo. É trazer para consciência das pessoas o que é de fato racismo. Mostrar que na sutileza do dia-dia é possível você cometer esse tipo de coisa sem perceber, e reproduzir isso sem perceber”, diz.

Expressões racistas

A primeira transmissão ao vivo, de acordo com Thaís Matos, girou em torno do resgate histórico sobre expressões que fazem parte do nosso cotidiano. Mas, carregam o racismo em suas origens.

“Além disso, a gente também quis trazer um debate para a comunidade. A primeira live foi com dois professores de história nossos, todos os dois muito engajados nessa temática”, diz a diretora.

Portanto, a escola trouxe para o debate coisas práticas. Muito além da teoria, para aproximar o debate da realidade dos alunos.

“A gente trouxe, por exemplo, a palavra ‘doméstica’. No período da escravidão, os brancos usavam essa palavra para se referir aos negros e negras que eram mais ‘domesticados’, mais ‘tranquilos’ para o trabalho dentro de casa. Por isso, eles trabalhavam dentro de casa”, explica a diretora da E.M. Gracy Vianna Lage.

Dessa maneira, Thaís Matos afirma que muitos estudantes e pais deixaram de usar palavras como “denegrir”, “doméstica” e “criado-mudo”, todas com raízes racistas.

Esse último substantivo, por exemplo, usamos para se referir às mesas de cabeceira. O problema é que a palavra “criado-mudo” era usada, no período da escravidão, para falar sobre os escravos que ficavam a serviço dos brancos durante a noite.

Posição de destaque

O Bairro Jardim dos Comerciários está localizado na região de maior vulnerabilidade social infantojuvenil de Belo Horizonte. Portanto, o trabalho de escolas como a Gracy Vianna Lage contribui para que os estudantes, a maioria negros, possam entender que podem alcançar posições de destaque na sociedade.

Tal entendimento, para a escola, vem a partir de exemplos. “Quando a gente traz para o debate personalidades que são negras, elas falam com propriedade. Ela se torna, naquele momento, uma referência de que é possível ocupar uma posição de destaque na sociedade”, diz Thaís Matos.

“A gente acredita que trazer isso para o debate público tem impacto na vida das pessoas pretas. A gente dá força para quem passou por isso não aceitar mais”, completa a diretora.

De acordo com ela, o trabalho resultou no compartilhamento de experiências negativas sofridas por pretos da comunidade escolar. Thaís garante que pais, funcionários e alunos relataram casos de racismo e de injúria racial durante a transmissão ao vivo.

Dia da Consciência Negra

O Dia da Consciência Negra acontece em 20 de novembro porque é justamente neste dia que se atribui a morte de Zumbi dos Palmares. Referência na luta dos negros contra a escravidão, Zumbi morreu em 1695, na Serra Dois Irmãos, localizada em Viçosa (AL).

A data existe desde 2003 no calendário escolar, mas só virou lei em 10 de novembro de 2011, no governo Dilma Rousseff (PT). Contudo, apenas os estados de Alagoas, Amazonas, Amapá, Mato Grosso e Rio de Janeiro decretam feriado em todos os seus municípios na data.

Em Minas Gerais, a decisão cabe a cada Câmara de Vereadores. Em BH, por exemplo, é um dia útil normal.

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