Christopher Rodrigues, o CR, encontrou no funk sua filosofia de vida. Foto: arquivo pessoal.

O dançarino e coreógrafo de funk Christopher Rodrigues, conhecido também com CR, faturou o primeiro lugar do concurso “Disputa Nervosa” e vai representar Venda Nova na segunda fase do evento. Classificado em segundo, Paulo Henrique de Jesus Maciel, portanto, também vai carregar o nome da regional na segunda etapa. 

O dançarino CR contou como tem sido participar do concurso em entrevista ao Jornal Norte Livre.

“Até agora não acredito que ganhei essa etapa da disputa. Sinto que esse é um presente para mim. Foi incrível sentir que eu evoluo com o que aprendi, cheguei a lugares que jamais imaginei representando Venda Nova. Foi surreal para mim, me estimulou muito a evoluir. Agradeço a Deus por ter me dado a oportunidade de dançar”, diz.

Além disso, o dançarino ressalta o papel desempenhado pelo funk em sua vida, mesmo diante do preconceito que cerca esse gênero musical.

“Quando o funk veio, ele veio para mudar vidas e salvá-las, assim como salvou a minha e a dos meus amigos. Minha trajetória no funk começou por causa da minha mãe. Ela era dançarina de funk antigamente, dançava na quadra da Vilarinho, e era minha inspiração. Sempre amei o funk, e já queria ser um grande dançarino desde pequeno”, afirma.

Dificuldades

Christopher Rodrigues passou necessidade quando era criança. Porém, a partir do funk, ele diz ter encontrado um caminho de disciplina, educação e amizade.

“A dança me ensinou a ler, para você ter ideia. Eu passei necessidade quando era criança, e eu prometi minha mãe que jamais deixaria isso acontecer de novo. A arte me ensinou a levantar com todo mundo, minha família e meus amigos. Eu já dei muito aula, até para moradores de rua, e foi aí que eu vi que isso mudava as pessoas”, afirma o artista. 

“Você aprende a ter disciplina, saber o que comer, meditações, exercícios físicos. Aprendi com o funk a gostar de todas as pessoas, o funk me fez ser uma pessoa, e o funk salvou minha vida”, completa.

Trajetória

Christopher começou a apresentar seu trabalho por meio da internet. Segundo ele, o primeiro contato aconteceu com o Duela BH, batalha de funk que acontece, tradicionalmente, abaixo do Viaduto Santa Tereza, no Centro de BH.

Lá, ele conheceu seu produtor, chamado Guto, e sua primeira coreógrafa, conhecida como Tetê do Trio Lipstick.

“Eu topei participar, na época, sem imaginar que minha vida mudaria. Eu vi naquele momento que minha vida era em cima do palco, mostrando meu talento”, lembra.

Dessa maneira, Cr, portanto, criou seu primeiro grupo: o Bonde dos Presley. O coletivo chegou a apresentar no Palácio das Artes, um dos palcos mais tradicionais de Belo Horizonte.

“Não acreditei. Éramos os primeiros negros a pisar no Palácio das Artes com o passinho. Depois entrei para o Grupo Assis Dancing, no qual me apresentei em várias cidades do Brasil”, diz.

A competição

As disputas em Venda Nova aconteceram no último dia 13. Quatro competidores mostraram seus talentos, deixaram a disputa acirrada e deram aos jurados uma difícil decisão. 

Além dos classificados, Victor Hugo e Gleiber Ferreira concorreram por Venda Nova. Porém, não avançaram para a segunda etapa.

A Disputa Nervosa reúne dançarinos de funk de BH. O evento continua acontecendo online sempre às terças-feiras, às 20h. 

O concurso tem promoção do Centro Cultural Lá da Favelinha e foi aprovado pelo Fundo Municipal de Cultura (2018 – 2019), oriundo da Política de Fomento à Cultura Municipal (Lei 11.010/2016). 

O evento já decidiu os dois finalistas de seis regiões de Belo Horizonte e partirá, agora, para nova etapa. Mas, essa não estava prevista no edital.

A nova fase acontecerá devido a algumas desclassificações. A explicação é a desatenção de alguns candidatos, que desrespeitaram regras na 1° fase.

“Todas e todos os candidatos eliminados, ou que serão (eliminados) daqui por diante, vão ter uma repescagem no final de tudo”, disse o gestor do projeto, Kdu dos Anjos, em nota no Instagram. Ele também é quem apresenta a disputa.

A final foi adiada e ainda é desconhecida a data dela, devido à repescagem. A etapa atual é para os competidores que se candidataram à repescagem.

Portanto, eles tiveram até o último domingo (1º)  para enviar seus vídeos, e agora vão disputar vagas na final. As informações e datas serão informadas por meio do Instagram do concurso.

O funk

O funk foi trazido para o Brasil na década de 1970, e a princípio era característico dos bailes nobres do Rio de Janeiro. As letras já traziam conotações sexuais desde essa época.

A temática do funk começou a contar a vida nas favelas mais tarde. E foi aí que o preconceito com o gênero musical cresceu. A luta do gênero musical, se tornou mudar a visão das pessoas.

“Hoje, nós levamos essa luta para mostrar que o funk não é o que as pessoas pensam. É leve. O passinho não tem a intenção de explorar as mulheres, ou fazer parte do crime. Nós queremos incentivar as pessoas a dançarem. É muito melhor ver uma criança dançando do que segurando um fuzil”, afirma Christopher Rodrigues. 

E ele lembra o precoceito racial vivido pelos negros, sobretudo aqueles que dançam o funk. 

“O funk é uma arte feita pelos negros, por isso tem tanto preconceito. Já passei por várias situações assim, as pessoas ficam caladas e depois que dançamos elas aplaudem porque veem a beleza do funk, e todo mundo vem te abraçar no fim”, explica o dançarino de Venda Nova.

*Estagiária sob supervisão do jornalista Gabriel Ronan

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