Vila do Índio 2019 - Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre
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A chuva que atinge Belo Horizonte em janeiro deste ano já ficou para a história. Venda Nova é a segunda regional que recebeu menos precipitação, mas ainda assim já quase dobrou a média histórica para o mês com 596 milímetros – 81% a mais que a mediana de 329,1 milímetros.

Para além dos riscos de deslizamento e enchentes, que tanto aterrorizam a região e Belo Horizonte, outro problema que pode ser ampliado pelas chuvas é a dengue. Principalmente em Venda Nova, onde as condições de saneamento básico estão longe das ideais.

Em entrevista à Rádio UFMG Educativa, Igor Cavallini, pesquisador na área de determinantes sociais da saúde e residente pós-doutoral no Instituto de Ciências Biomédicas da USP, ressaltou que a falta de saneamento é ainda mais preponderante para ampliar o número de casos de dengue.

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“O planejamento urbano não acompanhou o ritmo da expansão das cidades e deixou uma série de lacunas. A lacuna do saneamento básico é favorável ainda hoje para o surgimento do Aedes aegypti. A cobertura baixa de saneamento básico, com muito mosquito e alta densidade demográfica da cidade, contribui para a circulação do vírus da dengue na cidade”, afirmou o cientista à UFMG.



Para ilustrar o cenário exposto por Igor Cavallini, a UFMG usou como exemplo a Vila do Índio, aglomerado situado no Bairro Santa Mônica, em Venda Nova. No local, famílias convivem com as enchentes causadas pelo transbordamento do Córrego Várzea da Palma.

“Os vizinhos não cooperam e jogam vasilha com água no córrego. Como eu moro na beirada, eu evito o máximo. Antes eu entrava no córrego e tirava as latinhas que armazenavam água para espantar o mosquito daqui. Colocamos tela nas janelas também. Mas, mesmo assim, é difícil demais conviver com a dengue e com gente sem consciência”, contou Mariângela da Silva à universidade mineira.

Ela vive na Vila do Índio há três anos e foi vítima da epidemia de dengue que atingiu BH no ano passado. A filha dela também ficou doente após ser picada pelo Aedes aegypti.

Em entrevista ao Jornal Norte Livre, a líder comunitária da Vila do Índio, Mônica de Jesus, confirmou que a dengue realmente se tornou um problema no aglomerado. Ela já foi diagnosticada com a enfermidade três vezes, a última em julho último.



“Aqui tem muito foco de dengue mesmo. Tem muita coisa que armazena água. A gente faz esse trabalho com a comunidade. Pede aos moradores para não descartar lixo no córrego, mas não adianta. Além disso, agente de endemias nunca vêm aqui”, ressalta Mônica.

Segundo o último boletim da Saúde municipal, BH tem 55 casos de dengue confirmados neste ano. A pasta não separou esses diagnósticos por regional.

No ano passado, a cidade sofreu com uma de suas piores epidemias na década: foram 116.546 diagnósticos confirmados. Em Venda Nova, 17.055 pessoas foram infectadas, o terceiro maior número entre as regionais da cidade.

Experiência

Enquanto a preocupação aumenta para os próximos meses, em fevereiro a Saúde municipal pretende soltar milhões de mosquitos Aedes aegypti com a bactéria Wolbachia papientis em Venda Nova.

Cerca de 2 milhões de insetos poderão ser soltos a cada sete dias, durante um período entre 16 e 20 semanas, no bairros Copacabana, Piratininga e Jardim Leblon.

O objetivo é frear a proliferação de doenças transmitidas pelo vetor, como dengue e as febres amarela e chikungunya.

Wolbachia é um microrganismo intracelular. A bactéria não pode ser transmitida para humanos ou animais. Segundo a Saúde municipal, o método é natural. Portanto não coloca os ecossistemas naturais em risco, além de ser autossustentável.

Nem os mosquitos nem a Wolbachia sofreram qualquer modificação genética, conforme a prefeitura.

Novamente de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, outros países que adotaram a estratégia registram a bactéria nos mosquitos mesmo depois de cinco anos das liberações. Isso faz com que o microrganismo seja autossustentável.

Apesar disso, a medida é vista com preocupação pela população de Venda Nova. O questionamento gira em torno da escolha de Venda Nova como receber os mosquitos, justamente uma das regionais com menor concentração de renda em Belo Horizonte.

Segundo a prefeitura, a escolha por Venda Nova passa pela “análise das séries históricas de infestação por Aedes aegypti e incidência de doenças causadas pelo mosquito”.

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