Foto: acervo de Bárbara Wildemberg
Foto: acervo de Bárbara Wildemberg
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Inventividade e sustentabilidade são palavras-chave no enfrentamento aos diversos tipos de crises, sejam econômicas ou de saúde. Em 2015, em Venda Nova, Belo Horizonte, Douglas B. da Silva estava desempregado e, após muitas respostas negativas de trabalho, decidiu mudar a maneira como encarava a situação. Fez algumas pesquisas online e descobriu um produto gratuito e em grande escala de oferta nas proximidades de sua casa: pneus velhos.

Douglas percebeu no produto tratado como lixo a possibilidade de renda. Ele e o irmão começaram a recolher os pneus que encontravam, dando novo uso aos itens. A inventividade fez daquela “matéria-prima” camas para cães e gatos de todos os portes.


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O produto teve boa aceitação no mercado, pois o material era durável e fácil de lavar. Além disso, retirava dos aterros sanitários e outros lixões clandestinos um resíduo que poderia servir como foco do mosquito Aedes aegypti.

Em 2017, o negócio já estava sustentável e levou Bárbara Wildemberg, companheira de Douglas, a largar o trabalho como técnica em informática para se dedicar à empresa de reutilização de pneus. O irmão de Douglas saiu do negócio pouco tempo após a criação.

A empresa se chama DB ArtPneus. Segundo Bárbara, são removidos da natureza cerca de 200 a 400 pneus por mês. Ela estima que, nos cinco anos de existência, mais de 20 mil unidades foram trabalhadas pelo casal e tiveram novo destino.

A oficina fica na própria casa de Bárbara e Douglas, situada no Bairro Céu Azul. Quinzenalmente, o casal recolhe pneus velhos nas Unidades de Recebimento de Pequenos Volumes (URPV), da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), nas borracharias de parceiros e em lixões clandestinos.

“Nossa casa é 100% sustentada pelo trabalho com os pneus. Hoje, estamos apenas eu e meu companheiro na empresa. Às vezes, a minha sogra ajuda na costura. Atualmente, temos várias peças além das caminhas pets. Em outros países, como Venezuela e Colômbia, existe esse mesmo tipo de trabalho. Temos um amigo que mexe com isso há mais de 30 anos”, diz Bárbara.

Com o crescimento do negócio, outros tipos de peças começaram a ser fabricadas pelo casal, como poltronas, mesas, decorações de jardim, mandalas, lixeiras sustentáveis, cestos de roupas. São mais de 30 variedades na oficina/atelier e os preços variam de R$15 a R$400.

Conforme Bárbara, o item de maior saída é a cama pet, seguida pelas poltronas de pneus – um produto adaptado pelo casal e pouco visto em Belo Horizonte. “A perspectiva é crescer. Sempre procuramos melhorar com relação ao maquinário e à utilização do nosso tempo”, diz a empreendedora.

Quando questionada sobre as restrições movidas pela pandemia do novo coronavírus (Covid-19), Bárbara respondeu que a maioria das vendas são feitas via redes sociais e telefone. “Quando as pessoas vão buscar os produtos ou entregamos, tomamos todas as medidas indicadas pelo Ministério da Saúde, como o uso de máscaras e higienização. Além disso, os pneus são armazenados com todo cuidado necessário”, afirmou.

O uso comunitário em Venda Nova

A partir da união do projeto Ponto Limpo, da PBH, com o Sesc Boa Vizinhança, do Serviço Social do Comércio (Sesc Venda Nova), alguns moradores da comunidade do Bairro Jardim dos Comerciários fizeram a primeira ação com pneus em junho de 2018. Eles reciclaram o produto descartado irregularmente, construindo um jardim no entorno do córrego da Avenida Emiliano Franklin, em Venda Nova.

O próprio Ponto Limpo, que fica perto do local, também ganhou pneus velhos para fazer a estrutura e eliminar o “bota-fora” que existia no final da avenida. Chegou a gerar até uma horta comunitária, cuidada pelos moradores vizinhos.

Vagner Silva é um dos encabeçadores do projeto e também é artesão. Ele conta que após essa primeira iniciativa, vários outros locais em Venda Nova já abrigam pontos revitalizados como o próximo à Avenida Emiliano Franklin.

A ciência na reutilização

Pesquisadores da Universidade Federal de Lavras (Ufla) trabalham em um programa que reutiliza resíduos dos pneus na produção da matéria-prima que dá liga a painéis de MDP (Medium Density Particleboard) e cimento-madeira.

Em 2015, segundo o relatório de pneumáticos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), foram colocados no mercado mais de 59 milhões de unidades de pneus produzidos no país e importados. No mesmo período, conforme a ReciclAnip, da Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (Anip), cerca de 450 mil toneladas do produto (90 milhões de pneus de passeio e carga) foram destinados corretamente após o uso. Em 2019, a quantidade de itens vendidos foi, também, de mais de 59 milhões.

De acordo com a Superintendência de Limpeza Urbana (SLU), em 2019, foram recebidos 52.331 pneus. “A Unidade de Recebimento de Pneus (URP) é o local disponibilizado pela SLU para evitar que pneus inservíveis sejam jogados em lotes vagos, beiras de estrada e cursos d’água. A unidade existe desde fevereiro de 2007 e recebe gratuitamente qualquer quantidade de pneus. O cidadão também pode levar até dois pneus, por dia, a uma Unidade de Recebimento de Pequenos Volumes (URPVs)”.

A URP está situada na Central de Tratamento de Resíduos Sólidos da BR-040 e, a cada duas mil unidades coletadas, tem “o material é recolhido pela Reciclanip, transportado às empresas de trituração e, depois, encaminhados para destinação final. Eles são reaproveitados como combustível alternativo para indústrias de cimento, na fabricação de solas de sapatos, borrachas de vedação, dutos pluviais, vasos para flores, pisos, tapetes para automóveis, entre outras finalidades”, conforme SLU.

Serviço

Contato ArtPneus – dbartpneus@gmail.com / WhatsApp (31) 99133-9806


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Jornalista graduado pelo Centro Universitário de Belo Horizonte — UniBH (2017), jornalista editor no Jornal Norte Livre com passagem pelo Jornal Daqui BH, ambos parceiros hiperlocais do Portal Uai/Diários Associados. Professor e sócio na empresa "Quando - Fábrica de narrativas", conteudista, SEO (Search Engine Optimization), videomaker, fotógrafo e entusiasta como ilustrador, desenvolvedor web e animador 2D. "Os livros são o templo do jornalista, mas é nas ruas que ele congrega". Will Araújo

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