Imagem: Unsplash - kelly Sikkema
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Por Fatine Oliveira

Ano passado, em conversa com meus familiares, comentava meu temor pelas eleições deste ano. “Será uma eleição perigosa”, dizia. Não apenas pelo teor de mentiras que seriam compartilhadas, mas pelo sentimento que as norteariam. Eram muitos sentimentos escondidos, prontos para serem escoados durante as campanhas.

Assim foi. Porém, não fui capaz de prever como as nossas escolhas seriam tão profundas. Imaginei uma disputa acirrada, com brigas entre candidatos, discussões nas redes sociais e bagunça entre manifestações. Algo que já ocorreu em outros anos, mas com um fervor maior entre os participantes.

Enganei-me. O que se escondia eram mais do que discordâncias, embates políticos. Houve a revelação de ideias, a legitimação de nossos preconceitos interiores, o ódio alimentado durante anos pela grande mídia e seus aliados. O país rachou.


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Nosso país nunca foi este lugar (utópico) de camaradagem e da livre expressão pregada por muitos. Nós não nos respeitávamos, apenas nos tolerávamos. Praticávamos nossos preconceitos nas piadas ditas em bares e programas de televisão. Suportávamos o diferente quando ele se submetia ao seu lugar de diferença. Ali, bem longe de nós. Entre os seus.

Respeitamos religiões quando não as encontrávamos nas esquinas. Senão, chute para não “pegar em você”. Tá amarrado em nome daquele, que em princípio ditava o amor puro, mas agora é apenas coadjuvante de um plano financeiro.

Nessas eleições o país rachou, quebrou a máscara de cidadão de bem e mostrou o extrato. A cara não era nada bonita, e as palavras menos ainda. As mãos que antes se estendiam para receber os de fora, agora se preparam para armar e matar aqueles que forem selecionados pelos juízes nas ruas.

De repente, aquele amigo querido revela seu lado escondido. Nunca te respeitou de verdade. O recebeu em casa, serviu comida, porém não aceita seu “estilo de vida”. Nunca teve preconceito, desde que… O parente distante religioso e dono das melhores mensagens de bom dia no whatsapp revelou seu desconforto, trocou o abraço carinhoso pelas Fake News.

Amizades se desfizeram, famílias brigaram e histórias chegaram ao fim. Ao contrário do que muitos jornalistas dizem, ou algumas pessoas pregam, esses rompimentos não foram por causa de política. Em eleições passadas, na briga entre coxinhas e mortadelas, todos se reuniram novamente em grandes festas, misturando sabores e voltando a serem coxinhas de mortadelas.

Dessa vez foi diferente. Houve uma decepção miúda. Como se a confiança fosse quebrada. Foi difícil para muitos verem aquela pessoa querida defender alguém cuja fala e filosofia vai contra sua existência. Tal incongruência não é possível de digerir.

Ciclos se finalizaram. Longas amizades chegaram ao fim e famílias se revelaram.

Guimarães Rosa dizia “a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta”. Nada em nossa vida é absoluto, muitas vezes precisamos nos desconstruir, distanciar para entender o que acontece e depois retornar com mais lucidez.

Acredito na força do amor! É meio estranho falar disso neste cenário turbulento, mas creio que tais laços rompidos podem se restaurar se tiverem sido construídos com esse  sentimento.

Amizades reais tudo suportam. Eventualmente se rompem, mas se reconectam mais fortes. Superam as diferenças, se desculpam, perdoam e seguem o caminho juntas.

Contudo, amizades reais também acabam. Concluem seus ciclos, deixam as lembranças e seguem rotas para se conectarem com outras pessoas.

O que precisamos neste momento é nos cuidarmos, reencontrarmo-nos individualmente, equilibrar os pensamentos, buscar no outro a força e esperança para juntos construirmos nossas histórias. Ainda há uma longa estrada e nos importa saber quem realmente está ao nosso lado.

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