Cartaz afixado no alambrado do campo do Lagoa - Foto - Romualdo
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Por Gabriel Ronan e William Araújo

Uma semana após a tragédia de Brumadinho, o Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG) e colaboradores ainda não pararam de encontrar corpos e vestígios do que era uma comunidade. A barragem de rejeitos de minérios B1, situada na mina Córrego do Feijão, pertencente à multinacional Vale, rompeu no dia 25 de janeiro e engoliu a vida que existia no seu caminho.

Até o momento, em dados oficiais, são 110 mortos (71 identificados) e 238 desaparecidos – número que todos os dias é atualizado a partir das 18h e não para de crescer.


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Casas, animais, áreas industriais, córregos e o rio Paraopeba estão cobertos e contaminados pela lama. Entre as vítimas, os funcionários que estavam no próprio refeitório da mineradora, o qual ficava logo abaixo da barragem. Uma delas, o montes-clarense Renato Vieira Caldeira, técnico em meio ambiente e motorista de caminhão pela Vale há 13 anos.

Ele morava em Brumadinho com a esposa, Patrícia Maria, que trabalha para uma empresa terceirizada na portaria da mineradora e viu toda a tragédia de longe.

Renato tinha muitos amigos e era apaixonado pelo futebol. Quando mais jovem, fez diversos testes para a categoria de base e juvenil. O irmão, Romualdo, chegou a jogar na categoria aspirante pela Portuguesa e foi uma inspiração para o garoto.

Renato Vieira Caldeira – Foto enviada por Jardel Pereira, amigo de Renato

O pai, Sebastião, trabalhava em uma metalúrgica da cidade que foi comprada pela Gerdal, o que levou parte da família a mudar para o Rio de Janeiro. À época, Renato tinha quase 10 anos, foi com os dois irmãos menores para o litoral e ficou algum tempo separado de Romualdo, que se manteve em Montes Claros na casa da avó.

Alguns anos depois, o pai pediu transferência para a Gerdal de Nova Lima com o intuito de ficar mais próximo dos outros familiares. Eles mudaram para Belo Horizonte, para o Bairro Nova Cintra, no início da década de 1990.

Sem demora, a família conseguiu um empréstimo, comprou uma casa em Venda Nova, no Bairro Lagoa, situada na Rua Onófre Oliveira (antiga Rua 13) e reuniu os irmãos.

Renato continuou aficionado pelo futebol. Fez testes para entrar nos times Venda Nova Futebol Clube, Portuguesa, Magalhães (em Montes Claros) e acompanhava todos os passos de Romualdo. Jogou pela agremiação do Lisboa, no aglomerado do Santa Fé e criou, com irmãos, primos e amigos, a equipe Sociedade Esportiva Primos, que completou 20 anos em janeiro.

Renato à direita - Time Sociedade Esportiva Primos - Fonte: acervo familiar
Renato à direita – Time Sociedade Esportiva Primos – Fonte: acervo familiar

Em paralelo ao amor pelo desporto, por volta de 1999, Renato começou a trabalhar como cobrador de ônibus na viação Zurique, no Bairro Vista Alegre, e, depois, na viação São Lucas. Quando saiu do transporte coletivo, entrou em uma empresa terceirizada que prestava serviços para a Vale. Lá, conheceu pessoas que o indicaram para o ofício de motorista de caminhão.

Assim como o pai, Renato mudou-se por causa do emprego e passou a morar em Brumadinho, onde primeiro amasiou e depois casou com Patrícia.

Mesmo sem conseguir entrar em nenhum clube de renome, Renato sempre buscou fomentar o esporte. Trazia garotos de Montes Claros, custeava as estadias em Belo Horizonte e agendava os testes em clubes.

Neste domingo, um jovem zagueiro irá fazer teste em São Paulo, no time Audax de SP, porque Renato agenciou o encontro e pagou as passagens de ida e volta.

Outro atleta, lateral esquerdo no sub-onze do Cruzeiro, foi trazido à capital por Renato, que, após ambientação e formalização no clube, também trouxe a família do jovem.

Uniforme da escolinha de futebol – Fonte – Acervo pessoal Romualdo

Renato planejava abrir no Bairro Lagoa a “Escolinha de Futebol Irmãos Vieira – Projeto Paulinho Cascalho”. Havia reunido fundos para sair da Vale e ficar por até três anos trabalhando com a educação de jovens. As camisas da equipe técnica já estavam prontas.

Na manhã do rompimento, a pedidos de Renato, o irmão pendurou no alambrado do campo de futebol do Bairro Lagoa a faixa que anunciava o projeto. Em seguida, às 12h05, ligou para o irmão e contou que tudo estava encaminhado.

Quando atendeu o telefone, Renato estava no refeitório que minutos depois foi destruído pela lama. Alguns depoimentos relatam que ele não conseguiu fugir pois parou para ajudar alguém que havia caído no chão. Ele deixou a esposa e o filho de três anos, o qual já treinava.

 Filho de Renato - Foto cedida por Romualdo
Filho de Renato – Foto cedida por Romualdo

Os amigos de Montes Claros farão, no final do ano, uma reunião no antigo campo de futebol que Renato costumava jogar no Norte de Minas Gerais.Nesta sexta-feira, o Corpo de Bombeiros prestou uma homenagem às vítimas e lançou, por oito helicópteros, uma chuva de pétalas sobre a “zona quente” do rompimento.

Cartaz afixado no alambrado do campo do Lagoa – Fonte: acervo pessoal de Romualdo

Esta é uma homenagem do Jornal Norte Livre às vítimas da tragédia (crime) de Brumadinho.
Jornal Norte Livre, o Jornal de Venda Nova!

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Jornalista graduado pelo Centro Universitário de Belo Horizonte - UniBH, Bolsista PCCT na Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig)/Minas Faz Ciência, ilustrador, cartunista, videomaker, desenvolvedor web, jornalista editor no Jornal Norte Livre - parceiro hiperlocal do Portal Uai - com passagem pelo Jornal Daqui BH, conteudista, SEO (Search Engine Optimization), fotógrafo, animador 2D.