José de Abreu e seus amigos em Venda Nova, na Rua Padre Pedro Pinto próximo a Dr. Álvaro Camargo (antiga 12 de outubro) - década de 1950 - Foto - Eugênio Vidigal - Fonte: Acervo pessoal de José de Abreu
José de Abreu e seus amigos em Venda Nova, na Rua Padre Pedro Pinto próximo a Dr. Álvaro Camargo (antiga 12 de outubro) - década de 1950 - Foto - Eugênio Vidigal - Fonte: Acervo pessoal de José de Abreu

Por William Araújo

Em Belo Horizonte, meados da década de 1940, as entregas de mantimentos eram feitas por ciclistas. Antigas mercearias da cidade dispunham um rol de garotos com bicicletas de carga, que eram responsáveis por distribuir as compras dos clientes em todo o Bairro Centro.

A mercearia Cadar era um estabelecimento desse tipo. Nela, trabalhavam vários jovens e, entre eles, um enamorado por bicicletas, José de Abreu. O ciclista vendanovense nasceu em 1929, no Dia dos Namorados. Essa é, talvez, a explicação para tamanha paixão pela vida, pelo viver, pela sensação de existir.

Com 17 anos de idade, José de Abreu fazia entregas no Bairro Santa Efigênia quando passou pela Praça Floriano Peixoto e descobriu uma corrida de ciclistas prestes a acontecer. Ali, o coração falou mais alto e, mesmo com uma pesada bicicleta de carga e sem treinamento algum, decidiu participar. O garoto venceu sua primeira prova.

Competições desse tipo eram comuns em uma cidade que não tinha tantos carros. O distrito de Venda Nova e municípios de Santa Luzia, Pedro Leopoldo, Sete Lagoas eram um desafio a ser superado pelos ciclistas, que saiam do Bairro Centro e, pelas estradas de calçamento, ao fim das corridas, eram recebidos como heróis nestes lugares. Desse modo, naquela surpreendente vitória, começava a jornada de José de Abreu.

1. José de Abreu e ciclistas em frente ao Palácio da Liberdade antes do tiro de largada – fim da década de 1940

José de Abreu e ciclistas em frente ao Palácio da Liberdade antes do tiro de largada – fim da década de 1940 – Fonte – Acervo pessoal de Jose de Abreu

2. José de Abreu desce em primeiro lugar a Avenida Afonso Pena em uma competição – década de 1950

José de Abreu desce a Av Afonso Pena em uma competição – Década de 1950 – Fonte – Acervo pessoal de José de Abreu

3. José de Abreu lidera o pelotão durante prova que passa pela Avenida Antônio Carlos – década de 1950

José de Abreu lidera o pelotão durante prova que passa pela Avenida Antônio Carlos – década de 1950 – Foto – Acervo pessoal de José de Abreu

4. José de Abreu corre na Rua Otacílio Negrão de Lima em frente ao Museu da Pampulha – década de 1950

José de Abreu corre na Rua Otacílio Negrão de Lima em frente ao Museu da Pampulha – década de 1950 – Fonte – Acervo pessoal de José de Abreu

Novos e velhos caminhos

Nos anos seguintes, o jovem dividiu o tempo entre entregador e competidor. Reunia nas horas vagas com outro grupo de ciclistas, os amigos Isaías Mascarenhas, Geraldo Alves e os irmãos Walter e Mário Tassini – quem viria a ser seu grande rival. Fez parte do Cicle Moto Clube e carregou por muito tempo uma camisa deles nas corridas.

José de Abreu segue o amigo ciclista enquanto passam pela frenta da Praça da Matriz, na Rua Padre Pedro Pinto, em Venda Nova - década de 1940 - Fonte- Acervo pessoal de José de Abreu
José de Abreu segue o amigo ciclista enquanto passam em frente da Praça da Matriz, na Rua Padre Pedro Pinto, em Venda Nova – década de 1940 – Fonte- Acervo pessoal de José de Abreu
José de Abreu e outro ciclista em uma prova pelas vias de Venda Nova - próximo ao bairro Canaã - década de 1940 - Foto - Acervo pessoal de José de Abreu
José de Abreu e outro ciclista em uma prova pelas vias de Venda Nova – próximo ao bairro Canaã – década de 1940 – Foto – Acervo pessoal de José de Abreu

José de Abreu circulou bastante pelas vias de Venda Nova, inclusive, pela Estrada Velha, que ligava o distrito a Belo Horizonte. Quando podia, participava das competições de ciclismo e era conhecido pela resistência física e frequência de vitórias.

Certa vez, em uma corrida até Nova Lima, o rival Mário Tassini liderava o pelotão quando sofreu um pequeno acidente e teve a bicicleta e o desempenho comprometidos. Mas José de Abreu, que vinha logo atrás, em vez de ultrapassar o adversário, preferiu empurrar a bicicleta e ajudar o competidor. Os dois cruzaram juntos a linha de chegada e criaram grande repercussão na cidade pelo altruísmo do vendanovense.
José de Abreu ajuda ciclista na reta de chegada - década de 1950 - Fonte - Acervo pessoal de José de Abreu
José de Abreu ajuda ciclista na reta de chegada – década de 1950 – Fonte – Acervo pessoal de José de Abreu

Ficou tão famoso, que os jornais se interessaram pelo rapaz. José de Abreu figurava em muitas páginas dos periódicos de domingo, como o ciclista vencedor de mais uma disputa. Em 1951, foi contratado pelo Diários Associados.

José de Abreu trabalha na The Speed king, no parque gráfico do Diários Associados - década de 1950 - Fonte - Acervo pessoal de José de Abreu
José de Abreu trabalha na The Speed king, no parque gráfico do Diários Associados – década de 1950 – Fonte – Acervo pessoal de José de Abreu

Atuou no parque gráfico da empresa como um curinga; hora era fundidor, hora era mecânico de máquinas, hora trabalhava como linotipista. Segundo o ciclista, o próprio Assis Chateubriand, quando encontrava um problema, dizia: “isso é coisa para o Abreu”.

José de Abreu trabalhando no parque gráfico do Diários Associados - década de 1950 - Acervo pessoal de José de Abreu
José de Abreu trabalhando no parque gráfico do Diários Associados – década de 1950 – Acervo pessoal de José de Abreu

O Diários Associados deu grande valor ao empregado. O jovem recebia Cr$940,00 (o equivalente a R$ 3760,00), cerca de três vezes o salário mínimo da época – 380 cruzeiros -, e quando precisava disputar as corridas, era liberado dos trabalhos por até uma semana.

Carteira de trabalho de José de Abreu com contratação do Diários Associados - Foto - William Araújo
Carteira de trabalho de José de Abreu com contratação do Diários Associados – Foto – William Araújo
José de Abreu posa para foto com camisa do Cruzeiro - década de 1950 - Fonte - Acervo pessoal de José de Abreu
José de Abreu posa para foto com camisa do Cruzeiro – década de 1950 – Fonte – Acervo pessoal de José de Abreu

A celebre resistência física de Abreu antecedia sua presença. Venceu várias provas de força, como as corridas contra o relógio e ciclismo de estrada. Os clubes mineiros de futebol América e Cruzeiro estavam sempre presentes em suas camisas. Algumas vezes, os times convidavam José para fazer demonstrações de vigor físico aos jogadores de futebol.

Em uma dessas competições de estrada, José venceu o trajeto de Belo Horizonte ao Rio de Janeiro. À época, o presidente Getúlio Vargas quis conhecer o fenômeno que descera a Serra de Petrópolis e o convidou ao Palácio do Catete. De acordo com Abreu, no encontro, o governante deu “carta branca” a ele e disse: “José, peça o que quiser em Belo Horizonte. O que você precisa?”. O ciclista disse que precisava voltar.

Em outro momento, também em uma corrida de estrada, José saiu de São Paulo e foi ao Rio Grande do Sul de bicicleta. Em seguida, partiu para Punta Del Este, no Uruguai. Foi um dos únicos dois mineiros que venceram a prova.

José de Abreu em Punta Del Este, Uruguai - década de 1950 - Fonte - Acervo pessoal de José de Abreu
José de Abreu em Punta Del Este, Uruguai – década de 1950 – Fonte – Acervo pessoal de José de Abreu
José de Abreu apresenta o Rolo na Avenida Afonso Pena, Praça Sete de Setembro - década de 1950 - Fonte - Acervo pessoal de José de Abreu
José de Abreu apresenta o Rolo na Avenida Afonso Pena, Praça Sete de Setembro – década de 1950 – Fonte – Acervo pessoal de José de Abreu

O jovem aprendeu muito durante esse tempo. O ciclista também foi inventor. No início da década de 1950, criou o “rolo”, um equipamento para treinar resistência e velocidade em casa. Passava horas com a bicicleta no “rolo”, enquanto ouvia outro grande amor – as óperas. O invento foi, possivelmente, o primeiro em Belo Horizonte e chegou a ser apresentado em uma solenidade na Avenida Afonso Pena.

Contudo, houve tragédias na vida do atleta. Em 1952, enquanto descia ladeiras na Serra da Piedade, uma mulher cruzou a frente de José de Abreu e o campeão desviou a bicicleta e caiu, batendo a cabeça em uma pedra. Ele teve o crânio rachado e ficou desacordado por vários dias. As dores eram intensas e o médico advertiu que no futuro teriam sequelas. Entretanto, ele continuou a correr e vencer.

Em 1956, durante uma disputa, um carro abalroou José, ele prendeu o pé na roda da bicicleta e teve o dedão decepado. Esse novo acidente levou os médicos a pedirem que ele abandonasse o esporte. Pouco tempo depois, em 1959, José também saiu do Diários Associados.

José de Abreu na cama após acidente em 1952 - Fonte - Acervo pessoal de José de Abreu
José de Abreu na cama após acidente em 1952 – Fonte – Acervo pessoal de José de Abreu

O ciclista virou motorista de ônibus. Em 1965, se casou na igreja matriz de Venda Nova com Zaide Gomes e teve três filhas – Zaide, Aida (o nome de uma ópera) e Julia.

Diploma da Federação Mineira de Ciclismo e Motociclismo por Grande Benemérito - década 1980 - Fonte - Acervo pessoal de José de Abreu
Diploma da Federação Mineira de Ciclismo e Motociclismo por Grande Benemérito – década 1980 – Fonte – Acervo pessoal de José de Abreu

Em 1981, a pedidos de César Martins, do comércio de tecidos Casa Martins, foi celebrada uma corrida em homenagem a José de Abreu. Nela, a Federação Mineira de Ciclismo (FMC) deu a ele mais um diploma, mas desta vez de Grande Benemérito “em reconhecimento ao valioso incentivo prestado à causa do ciclismo mineiro”. Todavia, hoje, o nome do campeão nem é citado na página que conta a história da Federação.

José de Abreu em corrida prestada em sua homenagem - Frente da Regional Venda Nova da PBH - década de 1980 - Fonte - Acervo pessoal de José de Abreu
José de Abreu em corrida prestada em sua homenagem – Frente da Regional Venda Nova da PBH – década de 1980 – Fonte – Acervo pessoal de José de Abreu

O motorista se aposentou e ainda mora em Venda Nova. Cercado pela esposa, netos, filhas e genros, convalesce em uma cama diagnosticado com princípio de Alzheimer – um resultado do acidente sofrido. José de Abreu ainda chama a esposa de namorada, nunca se esqueceu dos tempos de ciclismo e no dia 12 de junho comemorará 89 anos.

Quando o encontrei e falei o valor dos seus feitos para a história de Venda Nova, Belo Horizonte, Minas Gerais e Brasil, José me fitou e respondeu com os olhos cheios de lágrimas: “eu fiz o que pude”.

O ciclista José de Abreu em junho de 2018 - Foto - William Araújo
O ciclista José de Abreu em junho de 2018 – Foto – William Araújo

Agradecimentos

Obrigado a Zaide Gomes, Zaide Aparecida, Aida Gizelle, Julia Maria, Jairo Gonçalves, a todos que contribuíram com o relato e, principalmente, ao senhor José de Abreu, que nos prestigiou com sua história de coragem e humildade, a qual serve como reflexão ao povo brasileiro no atual momento de crise que passamos.


Você tem fotos antigas de Venda Nova que remetem a uma grande história? Faça contato e não se esqueça de nos seguir no Facebook pelo link www.facebook.com/jornalnortelivre.

Envie aqui a sua sugestão de pauta ou mensagem

Curta e compartilhe nas redes sociais
2402Shares
Jornalista graduado pelo Centro Universitário de Belo Horizonte - UniBH, Bolsista PCCT na Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig)/Minas Faz Ciência, ilustrador, cartunista, videomaker, desenvolvedor web, jornalista editor no Jornal Norte Livre - parceiro hiperlocal do Portal Uai - com passagem pelo Jornal Daqui BH, conteudista, SEO (Search Engine Optimization), fotógrafo, animador 2D.