Professoras do Grupo Escolar Djanira Rodrigues de Oliveira - acervo pessoal Maria Mercês - Década de 1970
Professoras do Grupo Escolar Djanira Rodrigues de Oliveira - acervo pessoal Maria Mercês - Década de 1970
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Por Gabriel Ronan e William Araújo

“Estendendo o dedo para o meu rosto, ele disse: cuidado com o que a senhora vai falar daqui pra frente”.

Essa é uma das lembranças da pedagoga aposentada Maria das Mercês Moura Martins ao ser detida pelos militares do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), em 1972, no governo de Emílio Garrastazu Médici.


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Aos 85 anos, Dona Mercês, como é conhecida em Venda Nova, mora no Bairro Piratininga e, por causa de sua busca por uma educação melhor para a região, guarda várias histórias de repressão durante o período militar (1964-1985).

Uma delas se inicia em setembro de 1972, cerca de quatro anos após a outorga do Ato Institucional Número Cinco (AI-5), quando Dona Mercês dirigia, em Venda Nova, as classes desanexadas da Escola Afonso Pena Mascarenhas, chamadas de Grupo Djanira Rodrigues de Oliveira. À época, ela conta que os alunos do colégio viviam em condições precárias, em salas sem energia elétrica, sem janelas, sem portas de madeira, com escassez de alimentos e materiais.

“Temos só 65 pratos para 550 alunos, sendo que 15 foram doados pelas professoras. As colheres são apenas 30, e recipientes vazios de iogurte servem de canecos. As crianças têm que comer depressa para que as vasilhas sejam lavadas e passadas às que aguardam na fila” – trecho retirado da matéria publicada no Jornal do Brasil (24/09/1972).

Além disso, os pais, estudantes e funcionários precisavam atravessar o Córrego Vilarinho para chegar à escola. Sem saneamento, essas pessoas ainda estavam expostas à xistose, também conhecida como esquistossomose ou barriga d’água, relata a pedagoga.

Diante das dificuldades, Dona Mercês, endossada pelas professoras do colégio, decidiu agir por conta própria: intercedeu junto aos órgãos públicos para que fosse construída uma ponte (erguida meses depois); adaptou-se à lei que obrigava as escolas a servirem merenda aos alunos (mas não garantia quem serviria), solicitou ajuda aos comerciantes da Regional e aliava-se à solidariedade e vontade de educar das colegas profissionais. Esse virou o cotidiano das professoras do Grupo Escolar Djanira R. de Oliveira.

Professoras do Grupo Escolar Djanira Rodrigues de Oliveira - acervo pessoal Maria das Mercês - Década de 1970
Professoras do Grupo Escolar Djanira Rodrigues de Oliveira – acervo pessoal Maria das Mercês – Década de 1970

Quando um jornalista, em visita ao Serviço Social do Comércio (Sesc Venda Nova), embarcou, coincidentemente, no mesmo ônibus que as professoras, ouviu o pedido das docentes e foi até a escola para constatar as mazelas que relataram.

Lá, Dona Mercês, atual diretora, acreditando na justiça de suas palavras, “abriu o verbo” para o Jornal do Brasil. A matéria “Aulas acabam mais cedo em grupo de B. Horizonte por falta de luz (pág 34)” foi publicada no domingo, 24 de setembro de 1972, data do aniversário da pedagoga, e denunciava as negligências do líder Executivo estadual Rondon Pacheco e da Secretaria de Educação.

“Eu disse para ele ao final das perguntas: ‘mesmo assim (com as condições precárias da escola), aqui está hasteada a bandeira nacional e o retrato do governador'” 

Jornal do Brasil - 24 de setembro de 1972 - página 34 - Fonte - Google Newspaper
Jornal do Brasil – 24 de setembro de 1972 – página 34 – Fonte – Google Newspaper

O governo militar não perdeu tempo. No dia seguinte à publicação (segunda-feira), logo pela manhã, o Exército estacionou um jipe em frente a residência de Dona Mercês e aguardou, pacientemente, a saída da diretora. Ela foi conduzida ao quartel-general da Rua Santa Catarina, no Centro da cidade, onde ficou detida das 8h às 17h, cercada de microfones. 

Enquanto aguardava, os militares vasculharam toda a vida da diretora e família, mas, por sorte, o marechal Amaury Kruel não achou nada considerado importante. Antes de ser liberada, a mensagem que abre este texto, dita por um militar do DOPS, ecoou pela sala inspecionada. A data 25 de setembro ficou marcada na vida da aposentada como o início da repressão.

Vivendo a perseguição

Apesar de não custar prejuízos físicos a Dona Mercês, o governo militar continuou acompanhando a trajetória da pedagoga durante seis meses. O DOPS vigiou cada passo dela, até realizar uma nova abordagem no fim de 1972.

“Eu passei a ser acompanhada por pessoas do DOPS por seis meses. Todo lugar que ia, eles apareciam me acompanhando. Isso não me intimidava. Eu ria para eles ironicamente e eles sorriam de volta”

Nesse dia, a diretora escolar estava reunida com outras lideranças de Venda Nova em uma área cedida pela Igreja Católica para palestrar sobre a saúde infantil no meio escolar. Ao lado dela, estavam médicos que integrariam o primeiro centro de saúde da região.

Maria das Mercês em excursão a Brasília - Venda Nova - Foto -acervo pessoal
Maria das Mercês em excursão a Brasília – Venda Nova – Foto -acervo pessoal

Ingênua, segundo suas próprias palavras, Dona Mercês não tinha conhecimento de três agentes do Exército que a observavam nas imediações. Contou aos presentes sobre o caso de um garoto que há muito tempo estava tentando uma vaga nas escolas da Regional, mas só conseguiu porque tinha se aposentado.

Perplexa com o que o menino havia dito, questionou a ele: “como se aposenta um jovem de 14 anos?” O garoto respondeu: “eu estava trabalhando em uma gráfica e a máquina cortou meus dedos (mostrando a mão a Dona Mercês), por isso consegui me aposentar e ter uma vaga para estudar”.

Abalada e indignada, Dona Mercês disse na palestra: uma pátria em que um menino precisa perder os dedos e se aposentar para conseguir estudar não merece hastear bandeira”.

Tão logo a pedagoga disse a frase, os agentes do DOPS se apresentaram com armas e tentaram levá-la novamente. A repressão falhou graças à ação dos médicos, que cercaram a educadora e a escoltaram até o carro do seu marido, Osael Bastos Martins, que aguardava do lado de fora do terreno e deu fuga à esposa.

Mais tarde, quando ela imaginou estar livre, participou com o marido de uma reunião sobre apartamentos, dos quais os compradores estavam queixosos pelos valores absurdos que eram cobrados. Ela era a única mulher no recinto e decidiu expor a opinião.

Rapidamente, dois homens armados invadiram o salão e questionaram os rumos da reunião. Dona Mercês precisou se explicar e dizer que se tratava de um encontro familiar sobre moradia, mas como os apartamentos eram de um projeto do governo, eles encerraram a discussão e mandaram todos embora.

“Como diretora de escola, eu sentia que era minha obrigação estar ali. Houve um susto muito grande por parte de todos. Eu era a única mulher presente, ao lado do meu marido, e pensei que, por isso, seria a única que eles iriam respeitar”

Maria das Mercês em 2018 segura a foto das professoras do Grupo Escola Djanira Rodrigues de Oliveira - Venda Nova - Foto - William Araújo
Maria das Mercês em 2018 segura a foto das professoras do Grupo Escola Djanira Rodrigues de Oliveira – Venda Nova – Foto – William Araújo

Uma vida pela educação

Aposentada em 1988, Maria das Mercês foi diretora e co-diretora de quatro escolas em Venda Nova. Ela também lecionou na Região Nordeste do país, onde alfabetizou diversas crianças e jovens.

Atualmente, Dona Mercês se apresenta como uma das integrantes do Conselho de Venda Nova (Convem), que tem, entre outros objetivos, a missão de restaurar o meio ambiente da região.

O Grupo Escolar Djanira Rodrigues de Oliveira, que ficava na Rua 17, no Bairro Jardim Estrela – atual Bairro Novo Letícia -, mudou de endereço e foi construído no Bairro Jardim dos Comerciários com o esforço das várias professoras que atuaram ali durante o regime militar.

Agradecimentos

Obrigado, Zé Teixeira e Palhaço Limão (Vagner Silva), por terem apresentado a senhora Maria das Mercês. Agradecemos às professoras do Grupo Escolar e, principalmente, à senhora Maria das Mercês por ter nos recebido com muito carinho e educação, pela qual sempre lutou em Venda Nova.


*Todos os relatos descritos acima foram dados pela própria Maria das Mercês Moura Martins em entrevista concedida em sua casa. As datas foram checadas via registros cedidos pela mesma e pesquisa documental feita pelos jornalistas.

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