Foto: Will Araújo/ Jornal Norte Livre
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Encontramos Jussara Santos não porque é uma pessoa reconhecida pela comunidade de Venda Nova, pois não é. Não porque dá aulas há mais de 20 anos na rede pública de ensino, em uma escola municipal na Regional.

Descobrimos a Jussara por meio do diálogo “boca a boca” com o escritor de literatura infantil Leo Cunha, dias após ter participado do Festival Literário de Araxá – VIII Fliaraxá 2019, ocorrido no Tauá Grande Hotel de Araxá, em Araxá.

Lá estava a escritora e poetisa Jussara Santos, convidada pela organização do evento a ocupar uma das mesas literárias entre grandes autores(as) como ela. Dividiu a atenção entre os participantes e a tietagem por Conceição Evaristo, que ficou ali pertinho. Mal acreditou naquele momento, agora, parte de sua trajetória.

Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre
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Durante a infância em Belo Horizonte, Jussara ficava com a avó enquanto os pais saíam para trabalhar. Era a caçula de três irmãs. A “rapa do tacho”, como diziam.

Os pais de Jussara não tiveram muitas oportunidades para estudar, por isso, investiram na educação das filhas. A avó sabia apenas ler e gostava de poemas. Sempre lia o mesmo livro com a capa improvisada, o qual está guardado com carinho.

Quando ingressou na escola, Jussara já estava alfabetizada pela poesia, algo chamado depois de “alfabetisia” — termo criado pela escritora. “Nós sempre líamos muito. Eram revistas em quadrinhos, livros de poemas, tudo… A literatura sempre fez parte da nossa vida”, lembra.

Jussara escrevia bastante e pensava que todos eram assim. Imaginava que ler e escrever era natural, mas na escola percebeu que muitos não o faziam.

À época, a professora de Jussara pediu que os alunos(as) lessem o livro “À Beira do Riacho”, da escritora norte-americana Laura Ingalls Wilder. A história infantojuvenil contava a vida da autora enquanto viajava de carroça com a família em direção ao velho oeste americano.

Jussara foi aprisionada pela literatura e sentiu-se a protagonista do livro. Aquilo foi tão maravilhoso que as imagens não saiam de sua cabeça. Decidiu, ali, escrever para sempre.

Participou de concursos de redação e, mais tarde, com as referências debaixo dos braços, entrou no curso de Licenciatura em Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Lá sentiu, junto dos poucos que compartilhavam a mesma cor, a ausência de orientação sobre autores(as) negros(as).

“Dizíamos que queríamos trabalhar com o Cuti, dos Cadernos Negros (Conceição Evaristo e outros) e os professores não sabiam do que estávamos falando e não queriam nos ajudar. Não conseguíamos apoio neste sentido.”

Assim, Jussara e os outros criaram o Grupo Interdisciplinar de Estudos Afro-brasileiros. A insistência deles serviu de raiz para o atual “Literafro – Literatura Afro-brasileira”, da UFMG. Ela continuou a marchar e concluiu o mestrado e doutorado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (Puc-Minas).


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Com o tempo, algumas autorias de Jussara foram reconhecidas. Uma delas, o livro “De Flores Artificiais”, da editora Sobá, 2002, foi adotado pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) para leitura na rede municipal de ensino. Outra foi o 1º Prêmio BDMG Cultural de Literatura — Poesia, “Minas em Mim”, de 2005.

Seus textos são imagéticos, instantâneos do cotidiano. Sutis em trazer à tona o subterrâneo do racismo. Eles fazem sentir a jornada da escritora. Toda a batalha vivida por ela.

Fernando Pessoa, em uma passagem, dizia que escrever é esquecer; é a maneira mais agradável de se afastar da vida. Jussara concordou. “Escrever é um trabalho solitário e que nos desloca para ver o mundo de uma perspectiva fora dele. É uma forma de lidar, também, com aquilo que nos aflige, com alguns conflitos. Para mim, a poesia é uma forma de libertação”.

A poetisa escreve todos os dias e divide tudo em dois momentos. Um para o autor, em que existe o afastamento, e outro para o leitor, em que há o reconhecimento, a aproximação.

Texto do livro "De Flores Artificiais"- Jussara Santos
Texto do livro “De Flores Artificiais”- Jussara Santos

Em um texto curto do livro “De Flores Artificiais”, viu-se perseguida pela realidade destes dois tempos. Ela escreveu sobre duas mulheres que estavam na fila de uma agência de banco — uma, claramente, dependendo da outra.

Jussara estava do lado de fora da agência e observava as mulheres na fila dentro do banco, uma branca seguida de uma mulher negra. Nitidamente, a mulher branca estava abrindo uma conta, resolvendo algo para a outra.

Quando foram assinar, a autora ficou impactada pela situação. A mulher negra não sabia escrever e precisou usar as digitais no registro. Naquele momento, ela olhou diretamente para Jussara.

A poetisa ficou sem reação, pois não sabia se a mulher pedia algum tipo de ajuda, se estava triste por não saber assinar, sentia-se humilhada ou se estava pedindo desculpas por depender de outra pessoa. A cena e a dúvida atormentaram Jussara e escrever sobre aquilo trouxe alívio para a professora.

“Eu precisava fazer alguma coisa por aquela mulher. A autora Conceição Evaristo chama isso de ‘Escrevivência’”, conta.

O racismo sensível também afeta o mundo profissional da escritora. De acordo com Jussara, o livro “De Flores Artificiais” foi rejeitado por várias editoras com o argumento de que não era “realmente bom”. Ela se questionava se autores(as) brancos(as) também precisavam justificar seus textos daquela maneira.

“As respostas negativas sempre são educadas. Eles conseguem ser educados ao dizer não. Mas, quando você participa de um festival como o Fliaraxá, olha em volta e percebe que entre mais de 100 autores(as) brancos(as) existem apenas alguns negros, entende que o crivo é maior para os afro-brasileiros”.

Desse modo, quando Jussara teve as portas fechadas para o “De Flores Artificiais”, decidiu pedir ajuda aos amigos e familiares e editou, sozinha, o livro que foi adotado pela PBH.

Foi por meio da Prefeitura, também, que Jussara chegou a Venda Nova. Ela passou em um concurso público e assumiu o cargo de professora na Escola Municipal Milton Campos, no Bairro Mantiqueira, onde desenvolve o projeto “Mama África”, de valorização da cultura e descendência africana.

Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre
Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre

Neste ano, a escritora, poetisa e professora de Literatura e Língua Portuguesa expôs vários livros no Fliaraxá, como o título Crespim, o qual conta a história infantojuvenil de um anjinho negro dono de si. Ainda em 2019, a obra Indira será reeditada e lançada a partir de agosto.

Jussara não tem filhos, não possui celular e prefere o contato pessoal. Quando precisa se comunicar na internet, usa o e-mail como principal meio.

O nome Jussara é proveniente de Juçara, tem origem indígena na língua Tupi e remete à árvore palmeira, que tem espinhos, causa ardência e coceira. De certo modo, os textos da autora, realmente, fazem coçar quem os lê.


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Jornalista graduado pelo Centro Universitário de Belo Horizonte — UniBH (2017), jornalista editor no Jornal Norte Livre com passagem pelo Jornal Daqui BH, ambos parceiros hiperlocais do Portal Uai/Diários Associados. Professor e sócio na empresa "Quando - Fábrica de narrativas", conteudista, SEO (Search Engine Optimization), videomaker, fotógrafo e entusiasta como ilustrador, desenvolvedor web e animador 2D. "Os livros são o templo do jornalista, mas é nas ruas que ele congrega". Will Araújo