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Por Fatine Oliveira

Ainda me lembro quando a professora de português nos comunicou a leitura daquele mês. Nos trimestres, tínhamos o costume de ler e discutir títulos para fazer a prova final de interpretação de texto. Meu pai costumava comprar os “Almanaques da turma da Mônica” durante as férias, eram gibis grandes com várias histórias e jogos de colorir. Quando terminava um, logo comprava mais revistinhas para mim.

Assim, tomei gosto pela leitura, mas resistia à obrigação escolar de ler. Por isso, não me empolguei quando recebemos aquela tarefa: “O caso da borboleta Atíria” era o nome do livro.

Na capa, uma foto de olhos grandes e uma pequena borboleta amarela. Fiz o que muitos não recomendam: julguei pela arte da capa e iniciei a leitura como se estivesse indo para a forca.

A Coleção Vagalume foi uma série que marcou a infância e adolescência de boa parte dos atuais adultos de trinta e poucos anos. Foram diversos livros que incentivaram o prazer da leitura para toda uma geração, porém, naquele dia, me trouxe apenas uma forte desconfiança.

Para minha surpresa, aquela seria uma história diferente para mim. Nas primeiras páginas, ao conhecer a personagem principal, me apaixonei imediatamente. “Atíria” tinha um defeito nas asas e esse foi o motivo desse amor. Criada por uma “Jitiranabóia” (inseto semelhante a uma cigarra), era pequena e não conseguia voar longas distâncias sem cansar muito. Apesar da aparente fragilidade, tinha uma personalidade doce, alegre, capaz de conquistar a todos.

Para muitos, meus motivos são rasos, contudo, pela primeira vez, me identifiquei profundamente com uma personagem literária. Seu defeito nas asas se conectou com a minha deficiência e, quando percebi, comecei a fazer uma leitura profunda, como se estivesse assistindo a um filme. O tom policial da história ajudou a me prender, não é todo dia que lemos uma investigação do assassinato da noiva do “príncipe Grilo”.

Hoje em dia, falamos muito sobre representatividade, mas algumas pessoas desconhecem a importância e diferença de se ver (ou não se ver) na grande mídia, literatura e demais meios de comunicação de massa.

Vivi uma época em que pessoas com deficiência permaneciam em casa, longe das escolas e espaços públicos. Éramos considerados incapazes de socializar e, portanto, de sermos representados. Entretanto, o tempo passou, e com ele vieram mudanças. Novos tempos, novos pensamentos.

Por isso, ler uma história onde a personagem tinha limitações me fez viajar, acreditar na possibilidade de também experimentar transformações na minha vida. Identifiquei-me com “Atíria” e, com ela, criei vínculos que duram até hoje.

Isso é representatividade. Inicia na infância e molda uma vida. Ajuda na construção da sua identidade como pessoa, de não sofrer pelas suas diferenças, a entender que nelas estão suas maiores qualidades (muitas vezes) e sua beleza de ser.

Atualmente, nas redes, destaco o trabalho da Valentina Descolada, realizado pela Marta Alencar, psicóloga atuante na Associação Mineira de Reabilitação. Tina é uma barbie cadeirante que visita diversos lugares, pessoas e crianças levando informação sobre acessibilidade, diversidade, inclusão e respeito. Vale a pena conferir e mostrar para seus pequenos.

“Atíria” me encantou e ensinou muita coisa, do mesmo modo que tantas outras produções podem mudar diversas vidas. Dessa maneira, quando alguém falar sobre representatividade, saiba que não se trata de marketing, mas de uma necessidade de pertencer ao mundo; ver-se nessa grande comunidade chamada humanidade.

Afinal, todos somos iguais porque todos somos diferentes.

Lúcia Machado de Almeida - O caso da borboleta Atíria (1991-1998, Editora Ática, Coleção Vaga-lume)
Lúcia Machado de Almeida – O caso da borboleta Atíria (1991-1998, Editora Ática, Coleção Vaga-lume)
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