Advertisement

Pronta, mas fechada desde 2008, Maternidade Leonina Leonor é defendida por movimentos sociais como caminho para diminuir abusos contra gestantes em BH


Por Gabriel Ronan e Will Araújo

Em uma Belo Horizonte marcada pela opressão doméstica e por ocorrências de feminicídios, um outro tipo de abuso contra a mulher também salta aos olhos: a violência obstétrica. No coração de Venda Nova, bem ao lado da Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) da regional, uma possível solução para o problema: a Maternidade Leonina Leonor, praticamente pronta desde 2008 e que se deteriora com o passar do tempo, a partir da omissão da prefeitura de Belo Horizonte.

Para falar sobre o assunto, é necessário explicitar o que é violência obstétrica. Inclui-se nesse tipo de abuso qualquer ação agressiva, seja do ponto de vista físico ou psicológico, realizada contra a mulher em trabalho de parto ou nas consultas anteriores ao ato de dar a luz.

É o que explica a professora e chefe do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia (GOB) da Faculdade de Medicina da UFMG, Eura Martins Lage:

“Às vezes a pessoa acha que o obstetra bate e agride a paciente. Não é bem isso. Nós chamamos de agressão ou desrespeito ao desejo da mulher. Ela quer ter um parto agachada, mas o obstetra fala: ‘não, você vai ter na cama’. Nesse momento, ela está sendo vítima”.

Abandonada em Venda Nova, a Maternidade Leonina Leonor tem todos os atributos necessários para evitar o problema. A estrutura abriga salas de parto equipadas com banheiras de água quente, banheiro individual e cerca de 12 metros quadrados para que a gestante se movimente livremente. O espaço garante a presença da equipe médica e até de parentes da paciente. Tudo seria de graça, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS).

Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre
Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre

“É um projeto inovador porque avança nas propostas da saúde da mulher e da criança baseado nas melhores práticas disponíveis. É uma dívida social. Nós temos uma área (Venda Nova) de grande vulnerabilidade (social), populosa e com mortalidade infantil estagnada, a segunda maior de Belo Horizonte”, analisa Sônia Lansk, pediatra e integrante do movimento Nasce Leonina, criado para defender a inauguração da unidade.

Segundo Sônia, o parto humanizado via SUS só existe em um lugar da cidade: o Hospital Sofia Feldman, no Bairro Tupi, Região Norte. Em outras unidades, como nos hospitais das Clínicas (Centro-Sul) e Odilon Behrens (Noroeste), as gestantes são colocadas em espaços apertados, separadas uma das outras apenas por cortinas e dão a luz sem acompanhamento de parentes.

A estrutura leva o nome de Leonina Leonor Ribeiro, parteira que viveu entre 1883 e 1948 em Venda Nova. Além de trazer ao mundo várias crianças, ela organizava doações para o enxoval e fazia o registro em ficha dos meninos e meninas, o que ajudava os colégios da região a pressionarem os pais a fazer as matrículas dos filhos quando completassem idade escolar.


Vítimas


Os avanços tecnológicos na assistência obstétrica são inegáveis, como a operação cesariana, que virou recurso para a gestante e o(a) bebê em situações de risco. De acordo com o artigo científico “Parto Humanizado na Percepção das Enfermeiras Obstétricas Envolvidas com Assistência ao Parto”, publicado por Jamile Claro de Castro e Maria José Clapis na Universidade de São Paulo (USP), no entanto, esse tipo de parto passou a ser usado sem critérios.

Segundo elas, esse abuso do procedimento instaurou o parto como um método hospitalar, o que criou uma superficial sensação de segurança. Por isso, há movimentos da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde pelo resgate do parto natural, desde que humanizado.

Todavia, o que seria essa humanização? Apenas a oposição do parto cesárea? Não. As pesquisadoras defendem que o parto humanizado é um processo que respeita a individualidade das mulheres, que as valoriza como protagonistas e adequa a assistência obstétrica à cultura, crença, valores e diversidade.

Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre
Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre

O procedimento humanizado não foi o caso de Emanuelle Brunete, 41 anos, moradora do Bairro Havaí, distrito de Justinópolis. No parto do primeiro filho, em 2014, a gestante iniciou o acompanhamento no posto de saúde mais próximo a sua casa e descobriu que possuía gravidez de risco, gerada pela hipertensão. Dali em diante, com a finalidade de receber ajuda adequada, foi encaminhada para o Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Lá, segundo a mãe, foi atendida por médicos e residentes, os quais identificaram, além do risco de aumento da pressão, que ela não teria dilatação suficiente para passar por um parto normal. Emanuelle disse que ficava sempre incomodada com a quantidade de  pessoas que acompanhavam as consultas. Aquilo a envergonhava.

No dia 08 de setembro, por volta das 18h, a bolsa da gestante estourou e ela foi levada ao Hospital das Clínicas da UFMG. Ela e o companheiro levaram em torno de 45 minutos para chegarem ao local. Após medir a pressão na triagem, Emanuelle e o companheiro subiram para o andar da maternidade. O médico e enfermeira colocaram nela uma cinta, que segundo profissionais, serviria para medir o batimento cardíaco da criança.

Uma hora depois, a enfermeira voltou, retirou o aparelho e disse que Emanuelle deveria trocar de roupa, pois o parto seria induzido. Ela foi medicada e as contrações começaram a vir.

As contrações eram tão fortes que Emanuelle gritava de dor e pedia que parassem. A enfermeira apenas ministrava mais medicamentos para a indução e dizia que aquilo era normal e as dores aumentariam.

Entre idas e vindas da enfermeira, eram dados mais remédios, as contrações aumentavam junto com a frequência e eram feitos exames de toque para saber se a dilatação tinha aumentado mais do que os quatro centímetros iniciais. O procedimento causador de dores e gritos durou 15 horas e 30 minutos. Emanuelle informou a eles que o parto indicado pelos médicos anteriores era por meio de cesárea, mas a indução continuou.

A situação apenas mudou no dia seguinte, quando a madrasta de Emanuelle chegou e, vendo como ela estava, brigou muito com as enfermeiras e médicos solicitando que fosse cumprido o que os exames pré-natais e a gestante tinham decidido: a cesariana.

Quando Emanuelle recebeu a anestesia e deitou na maca hospitalar de parto, disse que foi um grande alívio. Contudo, ao fim do procedimento, percebeu que seu bebê estava com a cabeça em formato de funil e, aos prantos de medo, questionou aos médicos o motivo. Eles responderam que em poucos dias o crânio voltaria ao normal, mas que aquilo era consequência do tempo em que ela permaneceu com contrações induzidas.


Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre
Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre

Caso a maternidade Leonina Leonor estivesse aberta, talvez Áurea I. F. Magalhães, de 32 anos, moradora do Bairro Céu Azul, teria optado pelo parto natural. Durante a gravidez da primeira filha, neste ano, ela descobriu no posto de saúde em que fazia o pré-natal que tinha desenvolvido diabete gestacional. Por isso, foi encaminhada para uma consulta no Hospital Sofia Feldman.

O atendimento demorou cerca de quatro meses para acontecer e, quando ocorreu, os médicos disseram que ela tinha uma gravidez de risco, porém ainda indicaram o parto induzido com prioridade para o parto natural. Segundo Áurea, nas semanas seguintes, fazia de ônibus a jornada entre os Bairros Céu Azul e Tupi e a cada dia os quartos do Hospital ficavam mais cheios. O receio pela própria vida e da criança aumentaram e ela decidiu buscar um convênio particular para fazer o parto por cesárea.

Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre
Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre

O medo também assombrou Cláudia Mara Ribeiro, de 53 anos, moradora de Venda Nova, à época da primeira gravidez, na década de 1980. Ela tinha 20 anos e os próprios pais como únicos apoiadores e acompanhantes. Recorda que o médico ginecologista do Hospital e Maternidade Frederico Ozanan era muito agressivo nas consultas e fazia vários exames de toque indelicados. Quando a gestante opinava, ele a ameaçava dizendo que se ela não quisesse fazer o procedimento, tudo bem, mas, no caso de algum problema, também não fosse reclamar.

O ambiente era totalmente hostil e Cláudia precisava ficar calada enquanto ocorriam as consultas, por vezes sem a presença da mãe. Mais tarde, quando absorveu mais informação, percebeu o quão desnecessárias eram as frequências dos exames.

Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre
Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre

No dia do parto, foi proibida a entrada de acompanhantes, os médicos ministraram medicamentos para indução e as contrações surgiram. As dores eram imensas e Cláudia pedia remédios que aliviassem o sofrimento. Enquanto chorava, uma enfermeira dizia: “daqui a pouco você esquece a dor e vem novamente grávida para a maternidade”.

Após várias horas, não foi atingida a dilatação necessária e os próprios médicos fizeram o rompimento da bolsa da gestante. Como a criança estava com 4,3 quilos e 60 centímetros, eles fizeram um corte em Cláudia (epsiotomia) e ainda usaram o fórceps para abrir passagem para o bebê. O parto normal durou cerca de 8h.

O procedimento foi tão violento que os médicos pensaram ter quebrado alguns ossos da criança. Cláudia entrou na maternidade da sexta-feira, mas somente teve forças para ver o bebê no domingo, quando também recebeu alta.

“A dor nos leva para outra dimensão. Quando estava no Hospital, me sentia muito sozinha e refém do que os funcionários queriam. Eu gostaria muito que alguém da minha família estivesse presente. É um momento em que dependemos do outro emocionalmente, sabe?!. Hoje, as mulheres até conquistaram este acompanhante, mas existem hospitais que ainda negam. Eu acho que as crianças deveriam nascer em um local próprio para isso. Em um ambiente específico para a mulher; em um lugar em que o nascimento do filho fosse eternizado. Agora, quando vejo as mulheres darem à luz e já beijarem os filhos, sinto que me faltou alguma coisa”, diz Cláudia Mara.


Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre
Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre

Há quanto tempo


O projeto da maternidade nasceu por meio de um grupo de profissionais técnicos em 2008. O trabalho teve participação de pediatras, enfermeiros e um obstetra, além de profissionais da saúde pública. “Desde 2009, ela está pronta. Alegaram um monte de coisa (para não abrir o local). O novo prefeito que entrou (Márcio Lacerda) alegou uma série de questões para não inaugurar. Disseram que fariam reforma disso e daquilo, mas fizeram muito lentamente. Quando chegou em 2011, já estava pronto o que eles falavam, mas até hoje nada”, conta Sônia Lansk.

Em 2017, o Ministério Público estadual pediu para que a prefeitura abrisse a unidade. À época, o Executivo municipal garantiu que os serviços começariam no ano passado, mas nada mudou desde então. No total, foram investidos na Leonina Leonor cerca de R$ 4,9 milhões. Uma década depois, todo esse investimento começa a ser perdido.

Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre
Porta-voz da PBH fala em visita técnica organizada pela deputada estadual Marília Campos (à direita) – Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre

Outro lado

Em nota, a prefeitura informou que a abertura da maternidade custaria R$ 5,1 milhões e um custeio anual de R$ 31,2 milhões. A Secretaria de Saúde também ressaltou que estudos demonstraram que “não existe demanda reprimida que justifique investimento” em Venda Nova.

O Executivo municipal, no entanto, afirmou que instalará no local um Centro de Atendimento à Saúde da Mulher. Com gasto de R$ 1 milhão, o espaço oferecerá, entre outros serviços, consultas de pré-natal de alto risco, ginecológicas de mastologia e climatério. O objetivo é abrir a unidade no segundo semestre de 2020.

Quem acompanha a questão de perto, no entanto, pede que o investimento também seja feito no serviço de parto.

“Decidir por uma nova destinação de um espaço, passando por cima de 12 anos de controle e participação social, com promessas do prefeito, é um total desrespeito com a população de Belo Horizonte e de Venda Nova”, critica a militante do Nasce Leonina, Polly do Amaral.


Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre
Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre

ÚLTIMAS EDIÇÕES IMPRESSAS

Jornal Norte Livre - Edição de Junho de 2019
Jornal Norte Livre – Edição de Junho de 2019
Jornal Norte Livre - Edição de Julho de 2019
Jornal Norte Livre – Edição de Julho de 2019
Jornal Norte Livre - Edição de agosto de 2019
Jornal Norte Livre – Edição de agosto de 2019

Você é de Venda Nova?

Morador(a) de Venda Nova, fique por dentro de notícias exclusivas e específicas da regional. Clique no botão ao lado/abaixo e siga o Jornal Norte Livre nas redes sociais.


Curta e compartilhe nas redes sociais
84Shares