Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre
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Como nasce um palhaço?

Ele surge da terra vermelha, molhada e batida, que serve de palco aos circos itinerantes? Ele aparece do nada e some no nada, levando consigo apenas maquiagem e sapatos desengonçados? Talvez, seja fruto do desejo social em se tornar alegre sem por quê.

Eu também tinha dúvidas sobre os palhaços. Afinal, hoje, quem tem a oportunidade de conhecer o alguém por trás do nariz vermelho? Em Venda Nova, regional administrativa de Belo Horizonte, Minas Gerais, tive a chance.

Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre
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Confesso, fui invasivo. Por repercussão, já conhecia o personagem “Palhaço Limão”. Tinha visto fotos e vídeos em redes sociais, por isso, tempos depois de o descobrir sem a indumentária, me convidei a ir até sua casa para conversarmos. Senti timidez por parte dele, e quando cheguei, percebi um ambiente repleto de arte. A começar pelo cãozinho preto e branco da raça Shih Tzu, que ao latir foi repreendido pelo anfitrião: “shhhh… passa, van Gogh”!

Vagner Aparecido Silva, ou como resumiram alguns jornalistas antes de mim, Vagner Silva, me recebeu com um sorriso comedido e a simplicidade típica de pessoas do interior. Nascido no Bairro Lagoinha, próximo a uma das regiões mineiras com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), agora está no Bairro Jardim Comerciários, desde que chegou com seus pais, aos seis anos.

Vagner não mudou muito até se tornar adulto. Antes, também existia o desejo da transformação por meio da ação; da proatividade. Foi um garoto com inquietudes, porém muito tímido. Quem visse nem imaginaria o ator por trás do silêncio.

Nas recordações da infância, Vagner conta sobre o “Circo da Tia Dulce”, espetáculo itinerante oriundo do programa  “Clubinho”, da TV Alterosa. Dois palhaços, Rapadura e Pituchinha, compartilhavam os palcos com Tia Dulce e eram os responsáveis pelos risos. “Eu tinha muita vontade de participar”, conta.


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Vagner é o mais velho de quatro irmãos. A do meio, Viviane, sempre se sobressaía no assunto “desenvoltura em público”. Por isso, quando foram ao “Circo da Tia Dulce”, ela conseguiu ir até a apresentadora, brincar com as demais crianças e ganhar o prêmio. O garoto tímido viu tudo à distância e alimentou ainda mais o desejo de estar no palco.

O circo ficava no chamado “Campo do Buracão”, entre os bairros Lagoa e Lagoinha. No vislumbre de participar do espetáculo, Vagner imaginava piadas, falas e esquetes engraçados, os quais a família elogiava pela maturidade. A inspiração vinha dos palhaços Rapadura e Pituchinha e, até mesmo, do Bozo. “Naquele período, décadas de 1980 e 1990, alguns locais de Belo Horizonte ainda passavam por dificuldades para sintonizar todos os canais abertos, por isso, apenas conteúdos de poucas emissoras eram recebidos”, disse.

Vagner fez o ensino primário na Escolinha Cisne Azul. Nunca gostou de futebol, preferia sentar e brincar. Lembra da vez em que a mãe conversava com o filho de outra amiga e os elogios não cessavam, pois os menino sabia os dias da semana, as horas e as marchas dos carros. Pensou: “grandes coisa! Olha só, as marchas de um carro?! Eu quero mais é fuçar na terra”. Na adolescência, estudou na Escola Estadual Djanira Rodrigues de Oliveira, onde desenvolveu cabelos longos e o amor pelo skate.

Quando fala das tristezas da época, cita o sequestro do pai pelo alcoolismo. Conta que, infelizmente, veio a conhecer a figura paterna somente aos 13 anos de idade, pois, antes, o patriarca se resumia a trabalhar, beber, entrar calado e sair mudo de casa. Mesmo assim, Vagner esperava todos os dias, na varanda, o retorno do pai. “Eu via ele descendo o morro e meu coração aquietava”, afirmou.

Às vezes, o pai levava o filho para acompanhá-lo no trabalho como frentista, no posto de combustível. O jovem ficava entre os carros e ajudava na calibragem dos pneus, para ganhar uns trocados. Em um desses momentos, Vagner recuperou a esperança no pai.

Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre
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Enquanto calibrava os pneus de um rico cliente, o homem perguntou ao pai sobre os gostos do “ajudantezinho”. O frentista, com o intuito de responder que o filho gostava de assistir desenhos animados, disse: “ele gosta de desenho”. O dono do carro entendeu que o garoto queria ser desenhista e começou a tecer vários elogios ao menino. O pai, meio sem graça, não esclareceu a questão, mas achou bom e olhou para o rapazinho com muito orgulho.

Até aquele momento, Vagner não tinha sentido esse afeto, por isso, se responsabilizou por transformar o equívoco em verdade. Ali aconteceu o primeiro gatilho para as artes. O desejo pelo desenho e trabalhos manuais surgiram como forma de justificar o orgulho do pai.

Novos gatilhos

Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre
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Por volta dos 17 anos, começou a namorar Rosângela. Naquele tempo, Vagner também estudava no Núcleo de Estudos Teatrais (Grupo Net) e no Grupo Ponto de Partida, que oferecia cursos de atuação no Serviço Social do Comércio (Sesc Venda Nova). No Sesc, formou o “Grupo Início – Produções Teatrais”, no qual participou a atriz Rosana Dias, que mais tarde interpretaria a engraçada Valdete, na novela global “Espelho da Vida”.

Rosângela engravidou e Vagner, por coincidência, assinou contrato com a empresa Evento Alpha, responsável por reunir uma trupe de novos humoristas de Belo Horizonte e agendar apresentações, como na abertura do show do Tom Cavalcante, em Nova Lima. Participavam, com ele, os comediantes Caju e Totonho.

O mar de rosas não durou muito e vieram os desafios. No momento do pagamento pelas apresentações, a empresa deu o calote nos humoristas e sumiu com todo o dinheiro, o que deixou em maus lençóis Vagner e a noiva grávida. Ele precisou buscar um emprego diferente. O pai ajudou provendo um bar para que trabalhasse.

Apesar de não beber, o ator tocou o negócio enquanto pôde. Foi um momento bem difícil, pois a esposa, acometida pela dengue, perdeu a gestação. Em seguida, Vagner arranjou emprego no “Supermercado Mineirão”, na Região Centro-sul de Belo Horizonte. Em um dos retornos para casa, encontrou o antigo professor Zeiner, que perguntou: “E aí, como vão as coisas? E o teatro?!”. Vagner respondeu: “parei”. O professor então disse: “Não parou não. Você não é caixa de supermercado? Lá você também é um personagem”.

Aquele foi o segundo “clique” do ator, que percebeu na vida a existência de vários personagens. “Trabalhei depois como frentista e fui um ótimo frentista. Olhava a vida das pessoas como se não estivesse ali. Só observava”, disse. Tempo depois, desestimulado pelas condições de trabalho no posto, pediu conta e, com o dinheiro, comprou uma Kombi marrom e branca. Ainda estava, mesmo que remotamente, ligado ao “Grupo Início – Produções Teatrais”, por isso decidiu chamar os amigos, usar o carro e criar a trupe “Cia Tumblacatum”, de teatro itinerante infantojuvenil.

Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre
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A ideia era usar o teatro para levar informações importantes, como o valor da higiene pessoal, às escolas da regional. Eles cobravam R$ 1 por criança, mas, quando chegavam aos colégios, tinham apenas 30 alunos esperando, o que dificultava a jornada. O Sesc era um dos grandes contratantes do serviço.

Alguns meses após a “Cia Tumblacatum” estar na estrada, a Kombi foi roubada. Entretanto, mal assentaram as saudades e Vagner arranjou uma Elba para poder levar a trupe. Ele também estudou percussão e montou uma fanfarra na Escola Municipal Gracy Vianna Lage. Ali surgia o interesse em ser professor.

Questionador social

Neste período, o Sesc desenvolveu uma campanha de higiene e limpeza no parque aquático e queria que um palhaço desse dicas de comportamento aos banhistas, por isso, o ator construiu o personagem que há muito se debatia em seu imaginário. Nasceu o Palhaço Limão, criado por Vagner para fazer a parte cômica da trupe. O nome veio da roupa cor verde limão, vestígio de outra peça, que tinha a letra L na frente e foi usada no dia.

Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre
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Em seguida, Vagner criou a “Fanfalhaça”, inspirada na união entre fanfarra e palhaçadas. Eram 12 palhaços de praça que ocupavam os espaços públicos da capital enquanto tentavam tirar ritmos dos instrumentos de percussão.

Vagner conta que os palhaços não servem apenas ao riso. Eles são fortes questionadores sociais, pois fazem críticas e não são repreendidos. Assim, o Limão não é somente cômico, ele traz à tona as mazelas humanas e ajuda as pessoas a rirem e as interpretarem melhor. “O Palhaço Limão sou eu dizendo verdades. A graça só pela graça não tem graça”, disse.

Em uma festa infantil para a qual foi contratado, recorda que a mãe do aniversariante o ostentava como um troféu. Talvez, pensasse: “vejam todos, a festa do meu filho tem um palhaço”. A certa altura, a senhora, sentada à mesa com seus pares, chamou o palhaço e, erguendo a mão, entregou vários papéis de lixo a Vagner. Inconformado, pois nenhum serviçal deveria estar sujeito àquilo, Limão levou os papéis ao rosto, como se estivesse lendo, e disse: “não, você não fez isso! Não acredito. Você escreveu isso para mim?”. A mulher ficou roxa de vergonha e todos na mesa, inclusive, o namorado dela, queriam saber o que era. Foi quando Limão disse: não, eu não vou acabar com seu relacionamento não. Toma aqui!” E devolveu o lixo nas mãos da “dama”.

Entre as apresentações em praças, o gerente do Sesc disse que precisava de alguém para trabalhar com grupos e chamou Vagner para fazer os testes. Ele passou, mas ficou em segundo lugar. Meses depois, quando surgiu outra vaga, Vagner disse: “só vou se for para trabalhar com grupos”. A teimosia ajudou e, hoje, trabalha registrado com cerca de 270 idosos.

Quando questionei sobre a maior alegria vivida pelo Palhaço Limão, respondeu que foi em um momento ambíguo de felicidade e tristeza. Contou que uma amiga o convidou para se apresentar em uma creche perto do acampamento Dandara, localizado entre o Bairro Céu Azul e a Regional Pampulha. Antes de chegar, imaginou um roteiro em que ao final pintaria de vermelho os narizes das crianças. Tudo correu bem.

As crianças, ao fim, fizeram uma fila e tiveram os narizes, um a um, marcados de vermelho pela maquiagem do palhaço. Porém, sem perceber, no calor da atividade, surgiu uma criança com a face totalmente desfigurada devido a queimaduras. Ela não tinha nariz. “Não dava para inventar muito. Eu olhei assim e pensei: ‘e agora, o que eu faço?’. Eu pintei uma bolinha em cada bochecha da criança e imaginei: ‘que bosta que eu sou. Não consigo fazer nada por ela’ ”, contou.

A frustração bateu e Vagner voltou chorando para casa. Contudo, notou depois que a criança ficou feliz; que ela tinha brincado. “Foi quando entendi que meu objetivo não é fazer nada grande, mas pequeno. Tem muita gente que nasce para fazer grande, mas eu nasci para fazer o pequeno. Aquele instante fez diferença na vida dela. Por isso, hoje, eu não sinto a obrigação de fazer rir. Sinto a responsabilidade de entreter, levar informação e ser um instrumento de transformação por meio de pequenas coisas”, diz.

Em 15 anos de palhaçadas, Limão dividiu praças ao lado da esposa, a palhaça Maionese, e tem esperança de que as duas filhas deem continuidade à arte — principalmente, a mais velha, que dá vida à palhaça Limonese. Vagner completou 41 invernos no dia 18 de agosto, ainda trabalha no Sesc Venda Nova e se formou em Pedagogia pela Unopar.

Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre
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Jornalista graduado pelo Centro Universitário de Belo Horizonte — UniBH (2017), jornalista editor no Jornal Norte Livre com passagem pelo Jornal Daqui BH, ambos parceiros hiperlocais do Portal Uai/Diários Associados. Professor e sócio na empresa "Quando - Fábrica de narrativas", conteudista, SEO (Search Engine Optimization), videomaker, fotógrafo e entusiasta como ilustrador, desenvolvedor web e animador 2D. "Os livros são o templo do jornalista, mas é nas ruas que ele congrega". Will Araújo