Patio Corpo de Bombeiros com carros alegoricos do GRES - 20-03-2018 - Foto - William Araujo - Norte Livre
Patio Corpo de Bombeiros com carros alegoricos do GRES - 20-03-2018 - Foto - William Araujo - Norte Livre
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Por Gabriel Ronan e William Araújo

Logo após o desfile das escolas de samba de Belo Horizonte, na avenida Afonso Pena, em 13 de fevereiro, o carnaval do Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos de Venda Nova (GRES Acadêmicos de Venda Nova) não teve o mesmo desfecho dos anteriores. Em vez de comemoração, a escola de samba teve que encarar mais um desafio em sua trajetória.


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O proprietário dos barracões usados pela agremiação encerrou o contrato de aluguel entre as partes e pediu a retirada dos carros alegóricos e equipamentos.

Com a devolução do local, a escola ficou sem lugar para armazenar o acervo após o desfile. No dia seguinte, ainda era possível ver elementos das alegorias – como um jacaré de fibra – no canteiro central da Afonso Pena.

Diante desse problema, os dirigentes da Acadêmicos de Venda Nova decidiram ocupar um terreno de posse da Prefeitura de Belo Horizonte e cedido, por meio de um comodato (empréstimo gratuito, de algo não fungível, a ser restituído em tempo concordado), ao Corpo de Bombeiros.

“Na noite do desfile desse ano, colocamos os quatro carros alegóricos dentro do pátio. Quando estávamos desmontando os carros, 60 horas depois, chegou uma viatura do Corpo de Bombeiros e disse a eles que se tratava de uma ocupação de espaço público abandonado para criar, no local, um centro social e sede da Agremiação. Dando, assim, fim social para o espaço. Fui conduzido para registrar o boletim de ocorrência”, relata Francisco.

De acordo com o Tenente Coronel do Corpo de Bombeiros Rômulo da Costa, em entrevista ao portal R7, em 16 de fevereiro, o local estava devidamente identificado e desativado, aguardando aprovação e licitação de projeto para reestruturação do quartel.

Em nova etapa da ocupação, chamada pelos membros da agremiação de “Ocupação Azul e Rosa”, foi criado um abaixo-assinado em que os diretores pedem apoio às

atividades sociais e culturais exercidas, desde 2005, pela Escola de Samba GRES Acadêmicos de Venda Nova, no bairro São João Batista, adjacências e demais bairros de Belo Horizonte”.

O abaixo-assinado solicita ao poder público, por meio de um comodato, local para desenvolver suas atividades.

A Gabinetona

Na última sexta-feira (16), às 19h, as vereadoras Áurea Carolina e Cida Falabella (ambas do PSOL), do coletivo Gabinetona, convidaram o responsável pela escola para apresentar o problema em audiência na Câmara Municipal de Belo Horizonte.

Veja abaixo o momento da fala de Francisco (1h10), presidente da escola, na audiência.

Em resposta à reportagem, a Gabinetona prestou apoio à demanda da agremiação:

Há anos, a Agremiação Acadêmicos de Venda Nova reivindica um espaço na região para a criação de um centro cultural, capaz de abrigar diversas atividades como cursos, eventos e ensaios. Após anos de tentativa de diálogo com o poder público, a agremiação ocupou um espaço público que estava abandonado, ou seja, que não cumpria a sua função social, como previsto pela Constituição Federal (confira abaixo a nota completa)

Em conversa recente com Francisco, o presidente informou que o vice-prefeito de Belo Horizonte, Paulo Lamac, mobilizou o secretário da Regional Venda Nova, Humberto Pereira, para ajudar a resolver o problema.  De acordo com o dirigente da agremiação, a Regional Venda Nova tem recebido as solicitações de espaço para construção da sede da escola de samba desde 2012.

No último encontro, uma semana antes do desfile, foi apresentada a demanda pessoalmente ao coordenador, que se mostrou preocupado com a situação e garantiu que tentaria ajudar nos termos da lei cessão de espaço público, segundo Francisco.

Patio Corpo de Bombeiros com carros alegoricos do GRES - vista frontal - 20-03-2018 - Foto - William Araujo - Norte Livre
Patio Corpo de Bombeiros com carros alegoricos do GRES – vista frontal – 20-03-2018 – Foto – William Araujo – Norte Livre

A assessoria de imprensa da Regional Venda Nova disse que houve reunião, no dia seis de novembro, entre o presidente da agremiação, o coordenador da Regional, Humberto Pereira, o chefe de gabinete, Farid Sales de Carvalho, e diversas outras lideranças locais, por meio de solicitação do artista Zé Teixeira, para tratar de pautas variadas.

No reunião, Francisco Gonçalves solicitou espaço para guardar os carros alegóricos, enquanto Humberto Pereira pediu que a Acadêmicos de Venda Nova fizesse uma relação de locais que suprissem a necessidade da escola. Posteriormente, os locais seriam avaliados.

A Coordenadoria de Atendimento Regional (CARE) Venda Nova, na pessoa de seu coordenador, se posicionou contrária à ocupação e respaldou:

“A CARE VN está aguardando a agremiação trazer a relação de terrenos adequada às suas necessidades para tomar alguma providência”.

De acordo com Francisco, o Corpo de Bombeiros não pretende ceder o local, que está em comodato até 2021.

Apesar de usarem os barracões por temporada (quatro meses antes do carnaval), há 11 anos, a imobiliária pediu os imóveis por causa dos aluguéis atrasados.

“Estamos em processo de despejo do nosso barracão de fantasias. Não temos local pra colocar quase 160m³ de material. Os carros alegóricos ainda estão no PA do Corpo de Bombeiros, mas os tecidos e madeiras estão destruídos com o sol e a chuva. Provavelmente, uns 6 mil reais em madeira se perderam”, afirma Francisco.

Abaixo-assinado Azul e Rosa

A petição promovida pela agremiação já conta com 88 assinaturas. Para participar, acesse Ocupação Azul e Rosa.

Nota emitida pela Gabinetona

1) Qual o posicionamento tomado por vocês com respeito às medidas pedidas pela agremiação?
“Há anos, a Agremiação Acadêmicos de Venda Nova, que já conta com mais de 14 anos de história, reivindica um espaço na região para a criação de um centro cultural, capaz de abrigar diversas atividades como cursos, eventos e ensaios. Após anos de tentativa de diálogo com o poder público, a Agremiação ocupou um espaço público que estava abandonado, ou seja, que não cumpria a sua Função Social, como previsto pela Constituição Federal. Acreditamos que a cessão do espaço para a Agremiação é algo que pode favorecer em muito as moradoras e moradores da região, que já participam de cursos, eventos e atividades promovidos pelo grupo.
Durante a audiência pública que aconteceu no dia 12 de março na Câmara Municipal de Belo Horizonte – convocada por nosso mandato coletivo e pelos vereadores Arnaldo Godoy e Gilson Reis à Comissão de Educação, Ciência, Tecnologia, Cultura, Desporto, Lazer e Turismo, para discutir o Carnaval 2018 – um dos encaminhamentos foi a realização de uma audiência pública específica para debater a situação das escolas de samba e dos blocos caricatos, ocasião em que a questão da ocupação do terreno pela Agremiação Acadêmicos de Venda Nova também será tratada.
Esse caso aponta para um triste cenário de criminalização da Cultura Popular. Realizamos uma reunião com a Escola, Secretaria de Cultura e a Belotur para solução do problema, encaminhando, inclusive, articulação junto ao governo do Estado para reversão da ação judicial aberta contra o presidente da escola.”
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Jornalista graduado pelo Centro Universitário de Belo Horizonte — UniBH (2017), jornalista editor no Jornal Norte Livre com passagem pelo Jornal Daqui BH, ambos parceiros hiperlocais do Portal Uai/Diários Associados. Professor e sócio na empresa "Quando - Fábrica de narrativas", conteudista, SEO (Search Engine Optimization), videomaker, fotógrafo e entusiasta como ilustrador, desenvolvedor web e animador 2D. "Os livros são o templo do jornalista, mas é nas ruas que ele congrega". Will Araújo