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Por Fatine Oliveira

O longo cordão de repente se enchia de cores. Bandeirinhas de seda cobriam o céu e todo o bairro se contagiava com o som da sanfona. Jovens separavam os papéis da quadrilha, reuniam casais e o mais animado de todos coordenava a dança. As crianças vendiam rifas na escolinha para aumentar as chances de ganhar as premiações de baixo valor financeiro, porém de grande valor sentimental. Havia um status em ter uma bola colorida que quicava “até o mais alto”, como dizíamos.


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Festas juninas traziam esses cenários para muitos de nós. A fogueira esquentava o corpo, espantando o gélido vento do mês, enquanto o quentão aquecia os corações e algumas paixões, também. Aliás, os correios elegantes poderiam ser considerados os precursores do Tinder. Aos mais desinibidos, havia a barraca do beijo, que muitas vezes facilitava a paquera.

As barraquinhas eram um ponto de cidadania entre os vizinhos, a maioria se empenhava em fazer deliciosos quitutes, caldos e doces para alimentar a todos. Falando nisso, podíamos considerar esta época como a mais deliciosa e comestível depois do Natal: caldo de mandioca com carne seca, caldo de feijão com pedacinhos de bacon, caldo de couve, canjica, arroz doce, pé de moleque, paçoca e tantas outras maravilhas da culinária interiorana.

A quadrilha era o ponto alto da festa, todo mundo se divertia em ver os conhecidos do dia a dia fantasiados com seus farrapos e remendos. A música nos embalava e rapidamente seguíamos o ritmo em palmas e sorrisos.

Havia uma magia em torno das quermesses que, infelizmente, não tenho encontrado nos últimos anos. Sei que vivemos uma época chamada pós-moderna, na qual tradições são dissolvidas ou transformadas em outros tipos de relações. Desconectamos com nossa cultura para dar espaço a outras.

Considero as festas juninas e julinas como uma das maiores riquezas culturais do nosso país, pois, ao contrário de outros eventos, ela promove movimentos nas comunidades. Há uma sensação única em preparar a decoração das ruas ou ensaiar com pessoas que, normalmente, apenas cumprimentamos no ônibus pela manhã. Esse tipo de sentimento nos humaniza e incentiva a entender o bairro como um lugar a ser cuidado. Modifica nosso olhar em relação ao outro.

Talvez, esteja sendo romântica em minhas reflexões – dessas pessoas saudosas de um tempo que se foi -, mas ainda acredito que precisamos proteger nossas raízes. Se o carnaval, antes feito por escolas de samba do Rio e São Paulo, pouco a pouco ganhou espaço com blocos de rua que universalizam a folia, porque não podemos fazer o mesmo com outros eventos?

As festas foram feitas para diversão de todos, um momento para relaxarmos de nossas rotinas, de nos “re-conhecermos” e aproveitar a vida. Acho que esse é um bom motivo para começar a pensar nas nossas tradições, não acha?

Que haja mais quermesses, quentão e “anarriê”!

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