Foto aérea da paróquia Santo Antônio de Venda Nova - Cemitério no alto, cercado por muros brancos fechando um quadrado - Década de 1940 - Fonte - Acervo pessoal de Nilza de Oliveira Miranda
Foto aérea da paróquia Santo Antônio de Venda Nova - Cemitério no alto, cercado por muros brancos fechando um quadrado - Década de 1940 - Fonte - Acervo pessoal de Nilza de Oliveira Miranda
Advertisement

Minas Gerais, no século XVIII, tinha as atenções voltadas para a extração de pedras e metais preciosos. Diversas tropas de gado e comerciantes itinerantes cruzavam o Brasil colônia para abastecer as regiões que não investiam na agropecuária e insumos.



Na rota dos tropeiros que desciam da Bahia, estava um ribeirão famoso pela quantidade de onças do entorno (Ribeirão do Onça) e um povoado, conhecido como Clementes de Santo Antônio, de acordo com o livro “Canteiro de Saudades”, de Benvindo Lima, publicado em 2001.

À medida que as tropas passavam em direção ao Curral D’el Rey, entre as décadas de 1700 e 1720, o povoado crescia às margens da antiga estrada. Documentos antigos remetem a uma pequena capela (ermida) existente no local, em meados de 1711.

Estrada Velha de Venda Nova - 1946 - Acervo pessoal Antônio Augusto Rocha - Livro Lembranças de Venda Nova - Ana Maria Silva
Estrada Velha de Venda Nova – 1946 – Acervo pessoal Antônio Augusto Rocha – Livro Lembranças de Venda Nova – Ana Maria Silva

O registro mais conhecido é uma correspondência, datada de 1787, endereçada à rainha de Portugal (Dona Maria I), na qual é solicitada autorização para constituir no povoado uma capela em homenagem a Santo Antônio de Lisboa, pois os fiéis dali careciam de “pasto espiritual”.



Em prol dos devotos daquele local, em 1803, foi doada para a ermida de Santo Antônio (Clementes de Santo Antônio) uma grande parte da fazenda Antônio Crasto (Castro) Porto. A doação do patrimônio propiciou, em agosto de 1809, a autorização do Bispado de Mariana para a construção da capela.

Com a frequente passagem dos tropeiros e uma paróquia dedicada a Santo Antônio, o povoado cresceu e o comércio aumentou. Segundo herança oral, próximo à ponte da antiga Rua Direita (atual Rua Padre Pedro Pinto), que passava sobre o córrego Borges (coberto pela atual Rua Dr. Álvaro Camargos), surgiu uma nova venda que tinha de tudo — querosene, temperos, couro, arroz, toucinho etc.

A freguesia de tropas foi responsável por popularizar a região e a capela com o título de venda nova. Até os próprios fiéis adotaram o nome. Mais tarde, o povoado dos “Clementes de Santo Antônio” virou o distrito de Venda Nova, pertencente à Comarca de Sabará.

Imagem: Primeira igreja matriz de Venda Nova – Autor: desconhecido

Tudo passou a se chamar Venda Nova, até a paróquia virou “Santo Antônio de Venda Nova”. Ali, o padre José Luiz Diniz conduziu os devotos nas celebrações de missas até o ano de 1924.

Em 1925, o local já era um arraial e uniu-se à comarca de Belo Horizonte, nova capital de Minas Gerais. Mas, de acordo com ex-tabelião Hugo Fróes, no livro “O distrito de Venda Nova e um pouco da sua história”, de Geraldo Lisboa, por questões políticas com o governador Benedito Valadares, foi desligada e dada novamente, em 1939, a Santa Luzia.

O nome mais conhecido entre os párocos à época foi o padre Pedro Pinto. Ele era famoso por ser bondoso, ser um eloquente orador e um ousado líder. Esteve na paróquia entre 1924 e 1953.

Durante o período de permanência, o padre foi o primeiro entre as batinas a tirar a “Carta de Chauffeur” na capital. Ganhou um carro, um Ford 1928, o qual apelidou de “furreca”, e subia e descia a rua Direita, que passava em frente à igreja matriz.

Celebrou missas na paróquia durante quase três décadas e, quando a igreja estava muito velha, amarrou cordas nas paredes e na furreca, acelerou fundo e derrubou tudo. Em seguida, ergueu as mangas e construiu um novo templo, com campanário e casa paroquial. Nos fundos, no alto da Rua da Matriz, fez o primeiro cemitério.

Padre Pedro Pinto, Nilza em pé e Judith e Maria no banco de trás - Década de 1950 - Via de Venda Nova - Fonte - Acervo pessoal de Nilza de Oliveria Miranda
Padre Pedro Pinto, Nilza em pé e Judith e Maria no banco de trás – Década de 1950 – Via de Venda Nova – Fonte – Acervo pessoal de Nilza de Oliveria Miranda

As pessoas tiveram tantas dificuldades burocráticas pela distância entre Venda Nova e a prefeitura de Santa Luzia, que o pai de Hugo, o senhor Antônio Rodrigues Fróes, e os moradores prof. Antônio Gomes Horta, Dr. Álvaro Celso da Trindade e José Augusto Freitas organizaram uma reunião com o governador Milton Soares Campos em 1948.

No episódio, o governador ficou sensibilizado e decretou que a região voltasse a fazer parte de Belo Horizonte em dezembro do mesmo ano. Em seguida, na década de 1960, a Rua Direita foi renomeada como Rua Padre Pedro Pinto, em homenagem ao famoso padre.


Você é de Venda Nova?

Morador(a) de Venda Nova, fique por dentro de notícias exclusivas e específicas da regional. Clique no botão ao lado/abaixo e siga o Jornal Norte Livre nas redes sociais.


Hoje, Venda Nova é uma das nove regionais administrativas de Belo Horizonte, possui mais do que 265 mil habitantes e tem quase 82 mil domicílios, segundo censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Venda Nova comemora aniversário no dia 13 de junho, dia de Santo Antônio — seu padroeiro —, e faz 308 anos em 2019. Em comparação com Ouro Preto, uma das cidades mais antigas de Minas Gerais, a região é um mês mais velha. A paróquia Santo Antônio de Venda Nova, um símbolo antigo da devoção, completará 150 anos em agosto do mesmo ano.

Regional Venda Nova em 2019/ Av. Vilarinho – Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre

Uma nova história

Igreja provisória da Paróquia Santo Antônio de Venda Nova – 2019 – Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre

Desde 2015, a paróquia está sob a liderança do padre José Alves de Deus, conhecido como Zezinho pela comunidade. Ele já passou por diferentes igrejas de Venda Nova, como a de São Geraldo, no Bairro Piratininga, e a de Santo Inácio e São Judas, no Bairro Maria Helena. Celebrou missas no Santuário Arquidiocesano Nossa Senhora da Conceição, no Bairro Lagoinha, na Região Nordeste da cidade, e num templo do Bairro Jaqueline, no Norte de Belo Horizonte.

Natural de Carmésia, no Vale do Rio Doce, padre Zezinho veio ainda criança para Venda Nova e ressalta a ligação da igreja católica com a região. “Eu cresci aqui. Quando minha família veio do interior pra cá, eu tinha 8 anos. É minha paróquia de origem. Eu sempre participava (das celebrações), mas não sabia muito da história. Quando Dom Walmor (então arcebispo de Belo Horizonte e atual presidente da Conferência Nacional dos Bispos – CNBB) me transferiu para a Paróquia Santo Antônio, eu pude conhecer mais. É uma igreja que se confunde com a história de Venda Nova”, conta.

Padre Zezinho – 2019 – Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre

De acordo com padre Zezinho, a matriz teve influência na ocupação do Centro de Venda Nova, a partir do patrimônio de Santo Antônio. “Naquela época (século XIX), para se construir uma capela, o santo tinha que ter um patrimônio. Então, foi doado uma fazenda (Antônio Castro Porto) para Santo Antônio nessa região”, explica.

História à parte, o elo entre padre Zezinho e a população de Venda Nova também chama atenção.Enquanto o Norte Livre conversava com ele para a produção desta matéria, várias vezes fiéis tentavam falar com o pároco, sem perceber que se tratava de uma entrevista. O carisma e a educação marcam sua personalidade. José Alves de Deus ordenou em maio 1990 e vai completar 30 anos de dedicação à fé católica em 2020.

Sonho antigo dos fiéis, a nova igreja matriz de Venda Nova já está saindo do papel. Localizada ao lado da atual, o templo teve suas obras iniciadas no segundo semestre do ano passado e a intervenção deve custar cerca de R$ 7 milhões.

Obras para construção da nova igreja de Santo Antônio de Venda Nova – Foto: Will Araújo/Jornal Norte Livre

De acordo com padre Zezinho, não há previsão de término das obras, pois depende do fluxo de caixa da paróquia, que resulta das colaborações da comunidade. Segundo ele, a primeira etapa já foi vencida. Nela, os operários levantaram as paredes de contenção da estrutura e fizeram a fundação do terreno. Agora, a segunda parte compreende a primeira laje, que vai dar a cara do estacionamento subterrâneo da nova casa da igreja católica em Venda Nova.

Para avançar as obras, a igreja tem pedido aos fiéis a doação de sacos de cimento ou valores que podem reverter na compra do material. “Nós vamos precisar de 55 caminhões de concreto. Você que é devoto de Santo Antônio ou gosta de Venda Nova, junte a família e colabore com a gente. Nosso objetivo é dar esse segundo passo até 9 de agosto, a data de criação da paróquia”, solicita padre Zezinho.


Leia também


Curta e compartilhe nas redes sociais
1206Shares