Matthew Bennett - UnplashMatthew Bennett - Unplash
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Por Fatine Oliveira

Dia desses, observava meus pais durante o almoço, na mania pessoal de perder-me em pensamentos nas horas vagas. Ambos de madeixas brancas, rostos marcados pelo tempo, conversavam sobre as questões políticas noticiadas no rádio. Minha realidade, por mais privilegiada que seja em alguns pontos, ainda se mantém igual a de muitas pessoas com deficiência que dependem dos seus familiares e assistem seu lento envelhecimento.


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Quando minha avó faleceu com mais de 100 anos, acompanhei durante as visitas em sua casa seu processo de desligamento. A “Mainha” faladeira e brincalhona, dava espaço para uma senhora silenciosa, sonolenta e quieta em suas ideias. Poucas vezes se reconectava; principalmente nas despedidas. “Depois você volta” ficou para um outro momento, uma outra existência.

Falar sobre idosos traz esse sentimento do fim, de não haver mais o que fazer, pois a idade impossibilita os sonhos. É comum dizermos “não tenho idade para isso” ou “se fosse mais nova, eu faria tal coisa”. Do mesmo modo que abandonamos as possibilidades, deixamos de lado as pessoas. (Por sinal, deixo aqui como recomendação uma ótima leitura sobre o envelhecimento, chamada “Cachinhos de Prata” do escritor Leo Cunha.)

Lares de repouso, um quartinho no fundo de casa e uma despesa maior para o PIB nacional, assim resolvemos a existência dessas pessoas fora do tempo, atrasadas e incapazes de trazer algo de proveito para todos. Para alguns, aposentados são pessoas preguiçosas, muito diferente do que foram antes. Os anos trabalhados até a aposentadoria se tornam uma lembrança distante.

Ocorre que algumas dessas pessoas dedicam suas vidas ao cuidado de outras com deficiência. Certa vez, conversando com uma colega, mãe de um filho com autismo, ouvi dizer: “minha maior preocupação hoje é criar meu filho para que ele seja capaz de se virar sozinho quando for adulto. Não vou viver para sempre”.

Arrisco-me falar que este é o receio de vários pais de filhos com deficiência. Quem cuidará destes adultos em sua ausência? Para pessoas com deficiência, tal preocupação é munição para ansiedades acerca do futuro, especialmente em famílias com relações complicadas.

É importante compreender como a luta pela inclusão diz respeito a essa fatia da população que terá um crescimento exponencial nos próximos anos. A estimativa é que em 2030 serão 41,5 milhões (18%) de pessoas acima de 60 anos. Para muitos, esse cenário demandará mudanças nas políticas de saúde, assistência social e Previdência, porém nada se fala sobre a ausência de acessibilidade nos espaços públicos e de lazer, por exemplo.

Hoje o transporte público oferece condições bem aquém do necessário para o ir e vir com segurança das pessoas com deficiência. Elevadores constantemente estragados, motoristas sobrecarregados com múltiplas funções e excesso de passageiros fazem com que muitas pessoas deixem de usar o ônibus para transitarem com carro próprio ou táxi.

Hoje os idosos, assim como pessoas com deficiência, precisam enfrentar esses entraves sociais para existirem como cidadãos dignos de terem seus direitos respeitados. Sendo constantemente alvos de preconceito por causa de suas necessidades decorrentes do avançar da idade.

O Brasil mais velho necessitará não apenas de políticas econômicas preocupadas apenas com números, mas de uma mudança nos paradigmas sobre o envelhecimento. Entender quais são as demandas desta população, dando-lhe condições de experimentar qualidade de vida e respeito a sua autonomia de decisões.

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