Reunião para início de obras nos Córregos Marimbondo e Lareira - Foto William Araújo - Jornal Norte Livre
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Por William Araújo

A noite da quinta-feira (28) escolhida pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) para apresentação do projeto das obras dos Córregos Marimbondo e Lareira, em Venda Nova, foi marcada por preocupação, indignação, ânimos alterados e alívio. Cerca de 50 pessoas ocuparam o auditório da Escola Estadual Ari da Franca para entenderem e discutirem sobre os caminhos a serem seguidos pela Engibrás, empreendedora vencedora da licitação, para execução do tratamento de fundo de vale e controle de cheias da bacia do Córrego do Nado, que abrange bairros como o Santa Mônica e São João Batista.

Compareceram à reunião moradores, ambientalistas, engenheiros da Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap), o coordenador de atendimento da Regional Humberto Pereira de Abreu Júnior, vereadores, assessores e líderes comunitários. No evento, que durou, aproximadamente, duas horas, técnicos anunciaram que o acampamento do canteiro de obras ficará entre a Rua Augusto Franco e Avenida Dr. Álvaro Camargos, perto do local em que a jovem Anna Luisa, de 16 anos, perdeu a vida ao ser arrastada pela correnteza das águas durante as chuvas do final de 2018.


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Segundo Humberto P. de Abreu Júnior, a PBH começará a construir o acampamento logo nesta segunda quinzena de março. Além disso, as obras começarão independente da finalização dos trâmites de desapropriação e remoção dos moradores do entorno dos Córregos, o que previu acontecer em até 40 dias a partir do final do carnaval.

Outro dado ressaltado pela PBH são os locais que ficarão cobertos e receberão obras de melhorias paisagísticas e sociais, como a implantação de praças e equipamentos públicos de lazer e esporte. Também, segundo Renato dos Santos, engenheiro da Sudecap e supervisor da obra, será feito todo o esgotamento sanitário dos Córregos, removendo todos efluentes que são despejados nos cursos d’água.

Acerca dos alagamentos da bacia do Nado, ocasionados pela forte vazão dos Córregos durante as chuvas, Renato dos Santos explicou que serão feitas duas bacias de detenção no Lareira e uma de contenção no Marimbondo. Elas amortecerão as águas e diminuirão o fluxo causador das cheias. As duas bacias ficarão internas ao clube que existe entre as ruas Visconde de Taunay e Hye Ribeiro.

No Córrego Marimbondo, Renato dos Santos apresentou o local que terá alteração do leito e passará a seguir canalizado pela Rua José Maria Botelho. O antigo lugar por onde o curso d’água passava será coberto e tratado.

Na bifurcação em “Y” presente no local, será feita, também, implantação paisagística e de equipamentos. Além da bacia de contenção para enfraquecimento da vazão do Córrego.

Abaixo a linha em vermelho demonstra os locais em que o Marimbondo ficará canalizado e coberto.

Quando a apresentação terminou e foi aberto o diálogo para questionamentos, moradores demonstraram preocupações com respeito à segurança da obra, forma de canalização dos Córregos, transtornos colaterais a partir da alteração do leito do curso do Marimbondo e incompatibilidades de indenizações das desapropriações e remoções.

“Somos a favor da obra, mas somos contra a injustiça que a PBH está fazendo”

Neste momento, o vendanovense Mauro E. Inácio declarou que a PBH estava fazendo a desapropriação de mais da metade do seu lote e pagando, por isso, valores injustos. O morador teve fortes emoções ao explicar que apoia a obra, mas é contra a injustiça das baixas indenizações pois o local é fruto do trabalho e “suor” de sua família.

Mauro reside na Rua Raimundo Correia, no Bairro Santa Mônica, nas margens do Córrego Marimbondo. Segundo o morador, a PBH tem feito visitas para medição e avaliação há, aproximadamente, dois anos. No início de dezembro, ele foi chamado pelo jurídico da Sudecap e recebeu a notícia que seria indenizado em R$20 mil pela desapropriação de 336m² do lote que tem 600m². Além disso, as melhorias feitas, como canalização do esgoto, muro e outros cuidados, receberiam da Prefeitura a contrapartida de R$ 30 mil.

Segundo Mauro, “o valor venal do imóvel é cerca de R$200 mil e o que a PBH está oferecendo é mais do imoral, uma sacanagem”.

Terezinha de Jesus mostra guia do IPTU de 2019 paga com antecedência – Foto: William Araújo – Jornal Norte Livre

A senhora Terezinha de Jesus é outra moradora que alega estar recebendo valores surreais pela desapropriação de mais da metade dos 700m² do seu lote. Ela também reside na Rua Raimundo Correia e teve oferecido pela Prefeitura R$24 mil por 391m² e R$32 mil pelas melhorias que fez no local ao longo do tempo.

A moradora, assim como Mauro, diz pagar o Imposto sobre Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU) com antecedência e tem o valor venal do imóvel avaliado em R$222.802. Ambos fizeram a canalização do próprio esgoto.

Outra afetada pelas obras é Mércia L. C. Ribeiro. A PBH está oferecendo por 344m², de um lote de 800m², o valor de R$8 mil pela desapropriação e R$4 mil pelas melhorias. A moradora reside, também, no entorno do Córrego Marimbondo, na Rua Raimundo Correia, mas está próxima da nascente do curso d’água.

“Eu sou a favor da obra, mas não apoio a injustiça que estão fazendo conosco. Além disso, tenho muito medo do que vão fazer com a nascente que existe ali”, diz Mércia.

De acordo com Humberto P. de Abreu Júnior, os moradores estão em um local considerado Área de Preservação Permanente (APP) e apesar de no passado o loteamento ter sido aprovado pela PBH, isso hoje desvaloriza os imóveis. “Contudo, eles devem buscar a justiça, como já estão fazendo, e o que o juiz decidir será feito”, afirma.

Iniciativa movida contra novas tragédias

Também compareceu à reunião o vendanovense Marcos Antônio, pai de Regiane N. Guerino, falecida no dia 18 de julho do ano passado após ter caído com o veículo no Córrego Lareira, no Bairro São João Batista. O local da fatalidade, proximidade das Ruas Hye Ribeiro e Maria Lourdes Carreira, é conhecido pela declividade do talude que margeia o curso d’água e pela falta de barreiras de proteção.

Marcos reuniu 780 assinaturas com o pedido de que a obra dos Córregos, definitivamente, começassem. No encontro, solicitou à PBH que fizesse algo a respeito do local que não possui proteções.

Serviço

Veja na íntegra a apresentação do projeto das obras de tratamento de fundo de vale e contenção de cheias da bacia do Córrego do Nado.
Clique aqui para acessar o documento.

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Jornalista graduado pelo Centro Universitário de Belo Horizonte — UniBH (2017), jornalista editor no Jornal Norte Livre com passagem pelo Jornal Daqui BH, ambos parceiros hiperlocais do Portal Uai/Diários Associados. Professor e sócio na empresa "Quando - Fábrica de narrativas", conteudista, SEO (Search Engine Optimization), videomaker, fotógrafo e entusiasta como ilustrador, desenvolvedor web e animador 2D. "Os livros são o templo do jornalista, mas é nas ruas que ele congrega". Will Araújo