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Acadêmicos de Venda Nova (GRES) - 2018 - Voluntárias e fundadoras - Foto- William Araújo - Norte Livre Jornalismo
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Acadêmicos de Venda Nova: os bastidores de uma escola de samba

 

A pentacampeã do carnaval de BH abre suas portas e apresenta um cenário polarizado: de um lado, a paixão pelo carnaval; de outro, limitações financeiras e estruturais

 

 Por Gabriel Ronan e William Araújo

“Se a única coisa que de o homem terá certeza é a morte; a única certeza do brasileiro é o carnaval no próximo ano”. A frase do romancista Graciliano Ramos retrata o sentimento dos membros da Acadêmicos de Venda Nova – do presidente aos voluntários – diante da maior festa cultural do País.

Embora o gatilho da tradição carnavalesca brasileira tenha surgido em terras cariocas, com desfile de agremiações e ritmos variados, a expansão do hábito permeia outros estados, cidades e regiões do Brasil. Da celebração ao cunho social, do engajamento comunitário e econômico ao feriado prolongado, como o carnaval é expresso e movimenta esses diferentes solos?

Em Venda Nova, a união de purpurina, fantasias e samba se resume ao Grêmio Recreativo Escola de Samba (GRES) Acadêmicos de Venda Nova. A agremiação foi fundada em 2005, por membros da família Gonçalves, no bairro São João Batista. De lá pra cá, foram cinco títulos, conquistados em 2008, 2009, 2014, 2015 e 2017.

Somos garra e otimismo e temos a comunidade envolvida, parcerias e amor ao carnaval de Belo Horizonte. O carnaval está em nossa família desde sempre”, salienta Janaína Gonçalves, uma das fundadoras da escola, que vive a manifestação cultural desde os 14 anos.

Acadêmicos de Venda Nova (GRES) - Ensaio na rua - 2018 - Foto- William Araújo - Norte Livre Jornalismo
Acadêmicos de Venda Nova (GRES) – Ensaio na rua – 2018 – Foto- William Araújo – Norte Livre Jornalismo

A história do carnaval de Venda Nova vem de décadas passadas. Na região, a Escola Mocidade Independente de Venda Nova representou os moradores com um bicampeonato, conquistado nos anos de 1985 e 1986.

Apesar de extinta, a Mocidade tinha alguns traços da Acadêmicos. Dona Bela (Arabela), uma das fundadoras da atual escola, confeccionava roupas para o findado grupo de sambistas, a convite de seu filho Marco Aurélio, então com 15 anos.

Entre 1990 e 2003, um hiato – provocado pela falta de interesse do Poder Público em incentivar o carnaval – impediu que os carros alegóricos voltassem às avenidas de Belo Horizonte. Apesar da pouca tradição à época, o momento propiciava o surgimento de escolas de samba, que tentavam recuperar o costume perdido.

“Neste período, a gente continuou o carnaval em Nova Lima, Sabará e até no Vale do Aço. Em 2004, a partir da proposta da prefeitura de recriar a festa na cidade, reunimos as pessoas que conhecemos e os artistas que trabalham na área”, destaca Marco Aurélio Gonçalves, carnavalesco.

 

Neste cenário, um ano após o ressurgimento dos desfiles, nasceu a Acadêmicos de Venda Nova. Amparada, desde o início, pela união de amigos, vizinhos e da família de Dona Bela, estabelecida como o alicerce da agremiação.

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Reafirmação da identidade por meio do carnaval

 

Quando abriu suas portas ao Jornal Norte Livre, a escola de samba escancarou a paixão pelo carnaval e pelo samba. Desde as crianças próximas à sede, que trazem o samba enredo na ponta da língua, até os voluntários – que sacrificam suas rotinas em prol do espetáculo cultural.

Os membros trazem na alma uma característica comum ao surgimento do samba na história da música: a criação coletiva. Quanto às fantasias, 80 pessoas participam de todo o processo – desde os fundadores até os participantes facultativos.

Ao contrário do que ocorre nos clubes mais badalados do Rio de Janeiro, não é hábito da Acadêmicos cobrar tarifas de seus foliões para desfilar.

“Só cobramos daqueles que usam fantasias mais trabalhadas”, afirma o presidente da escola, Francisco José Gonçalves.

 

Outra coerência entre o gênero musical e a Acadêmicos se dá na reafirmação cultural. A partir da manifestação carnavalesca, a escola de samba ressalta a imagem de Venda Nova e dá mais voz à região – retratada, muitas vezes, apenas pela violência e desigualdade social –  na cidade de Belo Horizonte.

Kel Flores - Rainha de bateria - Foto - William Araújo - Norte Livre - 2018
Kel Flores - Rainha de bateria - Foto - William Araújo - Norte Livre - 2018
Kel Flores - Rainha de bateria - Foto - William Araújo - Norte Livre - 2018
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De acordo com a pesquisadora Cristiana de Azevedo Tramonte – em sua dissertação A pedagogia das escolas de samba de Florianópolis : a construção da hegemonia cultural através da organização do carnaval –, as escolas de samba “representam uma importante forma organizativa das camadas populares”.

A primeira escola de samba (Deixa Falar) nasceu em 1928, no Rio de Janeiro. Em BH, somente em 1937 surgiu a Pedreira Unida. Desde aquela época, essas organizações eram marcadas por serem representantes das camadas populares e da luta por visibilidade dos marginalizados – muitos descendentes de escravos vindos da Bahia, inclusive.

Exatamente 90 anos depois, a Acadêmicos de Venda Nova realiza seu trabalho com objetivos semelhantes, com ampla colaboração da comunidade do São João Batista.

“Nós representamos a cultura da região de Venda Nova e levamos a regional até em nosso nome”, diz o carnavalesco Marco Aurélio Gonçalves.

 

Dessa maneira, a associação contribui para a consolidação da imagem e cultura de Venda Nova na Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Para dar credibilidade a todo o trabalho desenvolvido desde o ano passado, a Acadêmicos, em seu samba enredo, neste ano, homenageou o Complexo Arquitetônico da Pampulha – escolhido como Patrimônio Cultural da Humanidade em 2016.

Responsável pelo projeto que levou a Pampulha à honraria, a arquiteta Luciana Féres afirma que iniciativas como a da Acadêmicos estimulam o “sentimento de pertencimento e constituição de uma identidade”.

“Por mais que o mundo esteja globalizado, há uma valorização daquilo que é único. A identidade de BH está ancorada na Pampulha”, diz Féres.

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Falta apoio

 

De acordo com o Diário Oficial do Município (DOM) de Belo Horizonte, a Empresa Municipal de Turismo (Belotur) repassou R$ 75 mil à Acadêmicos de Venda Nova, “para custear exclusivamente despesas relativas à sua apresentação carnavalesca”.

Em um primeiro olhar, o valor pode parecer mais que suficiente, mas não é. A escola de samba não tem lugar próprio para armazenar as fantasias e carros alegóricos, portanto precisa alugar espaços para tal.

Os investimentos com o aluguel, por exemplo, ficam na faixa de três mil reais mensais, sem contar as despesas com outro galpão, usado para abrigar e montar os carros. Apenas com o dinheiro dos eventos e a ajuda da comunidade, a receita não é bastante para custear as despesas.

Para o carnavalesco Marco Aurélio, falta incentivo da PBH à cena cultural local. “Espero que tenhamos um projeto de carnaval com pensamento do poder público, pois ele é obrigado a apoiar as manifestações culturais da cidade. Nós somos a cidade!”

 

Comparado com os blocos de rua, o critério da Prefeitura de Belo Horizonte, por meio da Belotur, precisa ser revisto. O Chama O Síndico, por exemplo, um dos maiores blocos da cidade, obteve R$ 10 mil via repasses da prefeitura.

Vale lembrar que o Chama O Síndico desfila justamente no mesmo local das escolas de samba – Avenida Afonso Pena. Porém, não precisa arcar com custos de fantasias, mão de obra, transporte de carros alegóricos, entre outros investimentos.

Além das limitações financeiras, a Acadêmicos enfrenta obstáculos estruturais. No dia do desfile, alguns foliões não buscaram as fantasias, o que deixou uma ala da apresentação com pessoas a menos.

“São pessoas que compõem um lugar de destaque no nosso desfile, mas, às vezes, elas não vêm buscar a fantasia e não nos dão nenhuma satisfação. Isso é muito grave”, pontua Leonardo de Jesus, vice-presidente da agremiação.

 

Apesar de todas as dificuldades, houve um aumento de R$ 25 mil no repasse da Belotur de 2017 para 2018.

“A Acadêmicos vê que o investimento está crescente. Antes era mais difícil, porque como você apoia algo que não existia? Estamos há 13 anos e as pessoas já sabem que há um carnaval em Belo Horizonte”, analisa Janaína Gonçalves.

 

Certo é que o carnaval, independente de qualquer limitação, está no coração de cada pessoa que se doa pela Acadêmicos e por Venda Nova.

“A gente quer que as pessoas se maravilhem e que nosso desfile fique na lembrança delas. Esse processo é mágico”, destaca o vice-presidente Leonardo de Jesus.

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